ESCÓCIA – 10 anos antes
As risadas ecoaram pelo corredor chegando aos seus ouvidos em um tom cruel e humilhante, os ferindo como ferro quente perfurando os seus tímpanos. Os olhos verde oliva possuíam tons vermelhos e refletiam intensamente as luzes néon por causa das lágrimas não derramadas. Suor frio escorria por seu rosto, descendo pelo pescoço pálido e indo aninhar-se no colarinho da camisa social que usava. Suas mãos tremiam enquanto apertavam com força os livros contra o peito, os fazendo de escudo. O sorriso zombeteiro de Christopher Hail parecia machucar os seus olhos, assim como o fato dele abraçar a cobiçada Pam Johnson pelos ombros.
- Você realmente acreditou que Chris iria se interessar por você? - a risada cristalina de Pam sobrepôs-se as outras, fazendo a jovem alvo da humilhação sentir-se menor ainda e extremamente tola.
Lily Graham apertou ainda mais os livros contra o peito, cerrando as pálpebras com força como que para bloquear aquela cena horrenda e impedir que a mesma ficasse gravada em sua memória. Tentou resgatar em suas lembranças o minuto em que se deixou convencer, deixou-se acreditar que Chris, um rapaz um ano acima do seu e extremamente cobiçado pelas meninas da escola, realmente estava interessado em sua pessoa. Apenas para descobrir com desgosto que todo o flerte, os encontros e, finalmente, o beijo não passaram de uma brincadeira de mau gosto. Uma aposta que Pam fizera com o namorado e as amigas para simplesmente acabar com a pouca auto-estima que a garota mais anti-social da escola possuía.
Ainda com as risadas reverberando pelas paredes frias do colégio, Lily deu automaticamente um passo para trás, procurando se afastar daquelas pessoas que presenciaram a sua desgraça. Sua mente tentava processar, entender como os adolescentes poderiam ser tão cruéis com alguém que simplesmente não se encaixava nos padrões hierárquicos estipulados pelos jovens pertencentes ao ginásio e colegial. Só porque Lily era tímida, não tinha muitos amigos e uma grande fobia em relação a locais populosos isso não dava aos seus colegas o direito de fazê-la alvo de zombarias.
Mas quem se importava? Com certeza não eram as mesmas pessoas que agora riam as suas custas, que faziam todo o seu corpo tremer de vergonha e pavor e para quem ela deu as costas e o mais depressa que as suas pernas bambas permitiram saiu correndo para longe daquele grupo cruel, indo se refugiar no armário escuro e apertado onde o zelador costumava guardar o seu material de limpeza.
Quando se sentiu segura o suficiente entre os esfregões, baldes e garrafas de desinfetantes, permitiu-se chorar. Lágrimas cristalinas rolaram por suas bochechas pálidas, traçando um caminho de dor enquanto seu corpo todo sacudia em soluços. Os dedos redondos fecharam-se em torno do nó da gravata que fazia parte de seu uniforme e com um puxão a afrouxou, como se a mesma a estivesse impedindo de respirar melhor. Não soube por quanto tempo ficou refugiada naquele pequeno armário. Se foram minutos, horas. Não sabia se era dia ou noite e se as aulas já tinham se encerrado ou não, mas assustou-se quando a porta abriu bruscamente e a luz fraca que vinha do corredor emoldurou a pessoa que estava parada sob o batente, causando um jogo de sombras que impediam Lily de reconhecer o seu visitante.
No primeiro minuto pensou ser o zelador, mas a forma sob o portal era menor, esguia e mais graciosa, diferente do homem sisudo e atarracado que fazia a manutenção da escola. Quando ela deu um passo para trás, possibilitando assim que Lily tivesse uma melhor visão dela, percebeu que a mesma não passava de uma menina de quatorze anos, a mesma idade que tinha, com olhos que transmitiam um estranho brilho sábio e pareciam ser bem mais velhos do que a garota aparentava. Os cabelos longos e negros estavam presos e no alto da cabeça havia uma bela tiara.
A desconhecida mirou Lily seriamente, percorrendo os seus olhos de cima a baixo pela forma da garota ainda encolhida dentro do armário, a avaliando silenciosamente. A adolescente se sentiu mais diminuída diante do aparente olhar de desprezo que recebia e assustou-se quando a estranha simplesmente lhe estendeu a mão em um convite mudo. Lily ficou longos segundos mirando a mão estendida. Algo lhe dizia que tal gesto possuía um significado maior do que aparentava e que aceitá-lo causaria grandes reviravoltas em sua vida.
No entanto, quando a jovem de cabelos longos lhe deu um meio sorriso fraternal, um sorriso que indicava que ela compreendia a sua dor, Lily resolveu deixar todas as suas apreensões de lado e envolveu sua mão na da garota, deixando-se erguer do chão em um puxão e em seguida levada embora para longe daquela escola. Para longe daquela vida.
EUA - Presente
Os raios do sol passaram por entre as copas das árvores, iluminando fracamente o solo molhado pela chuva da noite anterior e proporcionando a camuflagem perfeita para a jovem. O vento frio soprou, revirando algumas das folhas caídas por causa do início do outono e fazendo os cabelos escuros balançarem com a brisa e entrarem na linha de visão dos olhos verde oliva, porém em nada abalando a sua dona.
- Vai disparar ou não? - a voz ao seu lado, impaciente como sempre, quebrou a sua concentração. Soltou um suspiro, virando o rosto levemente para mirar a jovem equilibrada no galho junto com ela. Thalia, a filha de Zeus, a mesma que há três anos juntara-se as Caçadoras e assumira o lugar de Zöe como tenente quando esta pereceu na mão de Atlas, tudo para livrar-se da profecia que dizia que a prole de um dos Três Grandes seria a vitória ou a ruína do Olimpo. O que, no fim, quando a guerra contra Cronos estourou mostrou-se que nem sempre as predições eram cem por cento corretas.
- Espera. - murmurou a garota, o arco e flecha ainda armados na altura dos olhos e apontado para o cervo que pastava a uma boa distância delas dentro de uma clareira.
- Laurel... Eu quero jantar ainda hoje. - Thalia resmungou e a eterna adolescente de quatorze anos chamada Laurel rolou os olhos. Não tinha nada contra a nova tenente, na verdade em um bom dia as duas até que se entendiam, mas o gênio estourado da meio-sangue sempre entrava em contraste com o temperamento passivo da escocesa, o que fazia a senhora Ártemis juntá-las nas caçadas pois afirmava que o fato de serem opostas causava um bom equilíbrio durante o trabalho. E quem era Lily para contestar a sua senhora?
O cervo na clareira mexeu-se, erguendo a cabeça e parando de pastar, rodando os grandes globos negros pelo ambiente ao seu redor como se procurasse algo por entre as árvores. Thalia ficou imóvel, pois agora era o momento perfeito para atacar e se Laurel não fizesse nada, ela faria. Por seu lado, Lily não mexeu um músculo e quando o animal balançou as orelhas como se tivesse escutado algo e seu pelo arrepiou em aviso de que estava em perigo, Laurel soltou a flecha que cortou o ar com um zumbido e enterrou-se com força no peito do cervo, o derrubando com o impacto.
- Finalmente! - Thalia desceu do galho em que estava empoleirada em um pulo, esticando-se toda para estalar algumas juntas depois de tanto tempo de tocaia. - Pensei que iria se apiedar dele na última hora e deixá-lo fugir. - Laurel pousou ao lado da meio-sangue e armou mais uma vez o arco, indo até o cervo que debatia-se sobre a relva, ferido e agonizando. Parou perto do animal, apontando a flecha na direção do coração do mesmo, o qual ela podia ouvir diminuir o compasso a cada segundo.
Os grandes olhos escuros e lacrimosos a miraram como se implorassem por piedade e a jovem franziu as sobrancelhas, apertando com mais força o arco entre os dedos.
- Sinto muito, mas é preciso amigo. - falou para o animal e disparou, fazendo a flecha atravessar o coração dele e encerrando de vez com a sua vida.
- Por que você sempre pede desculpas para as nossas caças? - Thalia aproximou-se, puxando uma corda de sua mochila e a usando para amarrar as patas do cervo, depois as prendendo em um longo tronco que encontrara no chão da floresta.
- Temos que ter respeito com a natureza. Três anos servindo a senhora Ártemis não lhe ensinaram nada? - a repreendeu, levantando uma extremidade do tronco onde agora estava amarrado o cervo morto e o apoiando sobre o ombro esquerdo. Thalia fez o mesmo com o outro extremo, dando as costas para Laurel e assim a jovem não viu a mais velha rolando os olhos.
- Eu respeito a natureza... Mas não vou ficar pedindo perdão ao meu jantar cada vez que for caçá-lo. Isto é ridículo. - riu. Não conhecia a história de Lily. Na verdade, a jovem escocesa era um mistério tanto para ela como para as outras Caçadoras. Pelo pouco que sabia a garota havia sido recrutada pela própria Zöe há dez anos e parecia ter segredos que ela própria desconhecia, mas que a deusa Ártemis parecia saber, pois cada vez que Laurel agia de maneira pouco usual a deusa a mirava como se esperasse isto dela.
Por exemplo: uma vez, durante a guerra, estavam caçando um monstro nas florestas no norte dos EUA e perdera a pista do mesmo. Ártemis separara as Caçadoras em três grupos para preparar uma emboscada, pois sabia que a criatura estava nas redondezas e queria evitar que ela chegasse aos limites da cidade mais próxima onde poderia causar problemas com os mortais. Entretanto, antes mesmo que a deusa terminasse de dar as ordens, Laurel virara sobre os saltos e soltara em alto e bom som:
- Vamos para o leste! - e começara a seguir na direção indicada. Ártemis nem mesmo reagira diante desta interrupção da Caçadora, apenas sorrira e seguira a jovem sem dizer nada. E surpresa foi quando quilômetros a frente elas encontraram o monstro procurado a beira de uma nascente tratando das feridas que as próprias Caçadoras haviam lhe infligido mais cedo em batalha.
Depois de destruído e tudo acalmado, Thalia havia puxado Laurel para um canto, a noite no acampamento, para sanar a sua dúvida do que acontecera naquela manhã.
- Como você sabia que direção seguir? - e a única resposta que obteve foi mais enigmática do que a atitude dela.
- O vento me disse. - e a menina lhe dera as costas e fora se refugiar em sua barraca.
Laurel apenas sacudiu a cabeça em negativa ao ouvir o resmungo de Thalia, soltando um sorriso. A meio-sangue a divertia às vezes com as suas tiradas e humor sarcástico. O que era uma contradição. Normalmente quando uma garota se tornava Caçadora, adquiria uma paz de espírito e calma interior que eram necessárias para ajudá-la a se manter concentrada durante a caça. A filha de Zeus possuía isso, se fosse compará-la a época em que era apenas uma simples semi-deusa estourada e impulsiva, hoje ela costumava pensar mais antes de agir, mas isto não a impedia de soltar a sua língua ferina sobre os outros.
O som do vento passando entre as folhas das árvores chegou aos ouvidos das duas adolescentes, assim como o barulho de galhos quebrando. Thalia e Laurel pararam de pronto, com a primeira olhando por cima do ombro para a adolescente atrás de si com uma sobrancelha negra erguida. Calmamente as duas abaixaram o tronco que carregavam até o chão, depositando o cervo morto sobre a terra úmida e puxaram os seus arcos, os armando. Aproximaram-se uma da outra, ficando costa a costa e percorrendo o olhar floresta adentro.
O vento ficou mais forte, causando um reboliço de folhas balançando e galhos estalando. Os fracos raios de sol que passavam entre as copas das árvores ficaram ainda mais escassos e as duas posicionaram-se em alerta. Fazia um ano que a guerra contra Cronos havia terminado e embora o titã tenha sido derrotado, boa parte de seu exército ainda estava perdido pelo mundo, foragido e sendo caçado por Ártemis e outros heróis e não seria a primeira nem a última vez que elas topavam com um monstro fugido por acidente.
Um trovão ressoou no horizonte e a floresta escureceu completamente, ficando fria e assustadora. Thalia sentiu um arrepio de mau presságio percorrer a sua espinha e seus orbes azuis elétricos correram por entre os troncos das árvores tentando divisar algo mais que fosse além das silhuetas das plantas. Remexeu-se inquieta ao notar um vulto mover-se a distância e soltou um sibilo de desagrado.
- Atividade suspeita às duas horas. - avisou a Laurel as suas costas.
- Atividade suspeita às dez horas. - a escocesa respondeu e Thalia resmungou. Ótimo, não estavam lidando apenas com uma, mas duas ameaças.
- Podem ser lobos da montanha que sentiram o cheiro da nossa caça. - arriscou a meio-sangue e pôde sentir os ombros de Lily retesarem contra os seus.
- Não são. - disse em tom firme, puxando a corda de seu arco e disparando a flecha entre as árvores, onde a mesma sumiu no breu. Segundos depois um rugido ecoou na floresta e um brilho dourado surgiu por entre os troncos, dois orbes grandes e ameaçadores foram brotando da escuridão e aos poucos ganhando forma e corpo até ficar frente a frente com a Caçadora.
- Eu tenho dois cães infernais do meu lado. E você? - Thalia falou quando dois cães do reino de Hades surgiram de entre as árvores.
- A Quimera. - Laurel respondeu e ouviu a garota atrás de si dar uma longa tragada de ar. - Ordens tenente? - perguntou séria e a semi-deusa amaldiçoou-se.
Eram nessas horas que não lhe agradava muito o cargo que ocupava e sentia mais e mais orgulho de Zöe e se arrependia de não ter se entendido melhor com a jovem há mais tempo, antes dela morrer. Ser a comandante, responsável por todas aquelas meninas, que mesmo que fossem imortais e muitas fossem vários anos mais velhas do que ela, mas ainda sim tinham a aparência de meninas, era algo complicado. Era suas irmãs, sua família, e não gostava de colocá-las em risco. Mas também tinha aprendido com o tempo, como Ártemis lhe ensinara, que precisava confiar nelas assim como elas confiavam em si.
- Dividir e conquistar! - respondeu e Laurel assentiu com a cabeça, armando o arco com duas flechas e as disparando na direção da Quimera. A primeira flecha passou zumbindo perto da orelha do monstro, mas a segunda acertou o chão, liberando uma fumaça colorida e fedorenta. Laurel guardou o seu arco, retirando das botas as sai gêmeas que usava como armas e correu na direção da Quimera, aproveitando a confusão dela diante da fumaça e transpassando a mesma, tomando impulso com o pé e pulando acima do monstro, usando a ponta da lâmina feita de bronze celestial para abrir um corte no couro do animal que urrou.
Pousou suavemente sobre a terra às costas da Quimera e essa virou a enorme cabeça de leão para mirar a garota e rugiu, soltando um bafo de fogo sobre a garota que em outro salto saiu da linha de ataque. Através da serpente que se retorcia e sibilava e servia como cauda do monstro, Laurel pôde ver Thalia usar Aegis para proteger-se do ataque dos cães infernais enquanto investia contra eles com a sua lança. Mesmo tornando-se uma Caçadora, a jovem mantivera as mesmas armas de quando era uma heroína, pois a deusa Ártemis achava que elas eram muito úteis e adequadas para a nova tenente.
A Quimera rugiu mais uma vez, soltando o seu hálito de fogo e veneno sobre a adolescente e a garota deu mais um salto para sair do caminho, torcendo o nariz ao sentir o cheiro azedo que o monstro emitia. A serpente da cauda silvou e remexeu-se, contorcendo-se e avançando sobre ela para dar o bote e a jovem rebateu o ataque com uma de suas sai, causando um talho na pele escamosa do bicho. Outro trovão soou ao longe e um clarão iluminou as árvores. Um raio acabara de descer dos céus e atingir a lança de Thalia, sendo direcionado a um dos cães que foi arremessado contra o tronco de uma árvore, atordoado.
A Quimera avançou, fazendo Lily recuar a cada investida da enorme cabeça felina e das presas que trincavam e queriam a todo custo experimentar um pedaço da carne da Caçadora que defendia-se como podia diante das investidas do monstro, visto que a cabeça revezava com a cauda nos ataques. Quando mais um jorro de fogo disparou na sua direção, ela viu nisto a oportunidade de contra atacar e com outro salto pulou acima do monstro, o montando como um touro bravo e agarrando-se a juba untada com sangue. O animal prontamente sacudiu-se violentamente ao sentir a criatura intrusa no seu dorso e começou a correr por entre as árvores, chocando-se contra as mesmas na tentativa de deslocar a jovem.
Laurel sentiu seu ombro protestar com os trancos visto que usava a mão esquerda para segurar-se firmemente à juba enquanto com a direita erguia a sai acima da cabeça e golpeava várias vezes o couro da Quimera. O sangue do monstro começou a escorrer pelas feridas, mas as mesmas não o impediam de continuar correndo e se debatendo pela floresta para livrar-se daquele incomodo nas suas costas. Os dedos de Lily já ficavam dormentes contra a juba a qual se agarrava e os nós estavam brancos diante da força empregada, até que um balanço mais forte foi o suficiente para arremessá-la longe.
Seu corpo deslizou e rolou pela terra molhada, chocando-se contra raízes e causando arranhões em seu rosto. Em um gesto rápido travou a ponta das botas no solo fofo para impedir-se de continuar a deslizar, o que foi em boa hora, pois a poucos metros adiante o chão terminava em um penhasco onde quilômetros abaixo havia um rio de corredeiras nada amigáveis. Ofegante, ergueu-se aos tropeços e mirou as árvores, percebendo que a mesma cena de mais cedo se repetia. Olhos brilhantes e sedentos por sangue surgiam de entre as plantas e a Quimera parecia mais irritada do que antes, com o sangue correndo do seu enorme corpo de bode e a boca espumando e salivando de maneira doentia.
Com o coração aos pulos, Lily colocou-se em posição ofensiva, mirando bem dentro dos olhos da criatura e girando as sai em suas mãos, esperando pelo próximo ataque dela. Com um rugido a Quimera avançou em um pulo e Laurel deixou o corpo ir ao chão, investindo as duas lâminas contra o torso do monstro, uma na barriga e outra na altura do coração. As armas enterraram na carne da Quimera até o punho e a mesma urrou de dor, seu salto continuando devido a força da gravidade e a Caçadora arregalou os olhos ao perceber em que direção o bicho estava indo: bem para o penhasco.
Tentou soltar as lâminas, não iria deixar para trás as armas que lhe foram presentes da senhora Ártemis, mas quando finalmente conseguiu libertá-las, não sentiu mais o chão sob si. Acima de dela a Quimera explodiu em luz dourada e ao seu redor o mundo passava rápido demais até desaparecer em um turbilhão de água e escuridão.
Continuação..
Sentiu algo esbarrar em suas pernas e baixou o olhar, sendo cumprimentada por um par de olhos castanhos claros na face rubra e arredondada de um menino de três anos. O garoto sorriu, lhe mostrando os recentes dentes de leite e depois levando o dedão da mão direita a boca. Não conseguiu segurar o sorriso que brotou em seu rosto e suavemente ajoelhou-se no chão para ficar na mesma altura que o garotinho.
- Está perdido? - perguntou em tom suave para não assustar o menino, enquanto ao mesmo tempo rodava os seus olhos pela multidão a procura de alguma pista de quem poderia ser os pais daquela criança. - Qual é o seu nome? - continuou, ainda com o sorriso simpático e o menino tirou o dedo da boca.
- Noah. - respondeu tímido e a jovem arqueou as sobrancelhas. Noah. O nome era bonito, mas não lhe trazia boas lembranças. Noah fora o nome de seu falecido avô. Assim como fora o nome de seu pai.
- Onde estão os seus pais, Noah? - o garoto sacudiu a cabeça em negativa, claramente dizendo que não sabia, e a garota suspirou, erguendo-se do chão e depositando uma mão sobre os cabelos claros da criança, voltando a rodar os olhos pela multidão a procura de algum casal que mostrasse clara indicação de estar inquieto por algum motivo aparente. O sumiço do filho por exemplo.
- Eu conheço você. - Noah continuou em seu timbre agudo e infantil e os orbes verde oliva voltaram-se para ele. - Tem uma foto sua na casa da vovó. - franziu o cenho ao ouvir isto e voltou a se ajoelhar em frente ao menino.
- Casa da vovó? - segurou suavemente os ombros dele e o garotinho assentiu com a cabeça.
- Vovó Laura sempre chora quando olha para a sua foto. - a adolescente engoliu em seco e arregalou os olhos, soltando os ombros do menino como se ele estivesse pegando fogo e afastando-se um pouco dele para mirá-lo melhor. Como não pôde perceber a semelhança? Os mesmos cabelos claros, o nariz era igual, assim como a boca e os olhos. Sem contar o nome que era mais do que suspeito.
- Venha! - falou, erguendo-se num impulso. - Vou levá-lo a estação dos seguranças, eles vão ajudá-lo a encontrar os seus pais. - estendeu uma mão para ele e ofegou quando sentiu os dedos pequenos e macios tocarem os seus. Seu coração pulava no peito enquanto caminhava guiando o menino até o posto onde ficavam os seguranças daquele parque e quando aproximou-se da construção pôde ver duas figuras familiares que gesticulavam largamente para os homens uniformizados.
- Mamãe e papai. - Noah sorriu ao reconhecer o casal ao longe que parecia bem aflito e automaticamente a jovem soltou a mão do pequeno que a mirou confuso. - Você não vem? - ela lhe sorriu e sacudiu a cabeça em negativa, dando um passo para trás.
- Não.
- Mas é a sua família também. - algo entalou na garganta da garota ao ouvir tais palavras vindas de alguém tão novo. O menino era mais esperto do que aparentava ser e tinha captado as coisas rápido demais para alguém que a conhecera apenas há alguns minutos.
- Não mais. - lhe deu um sorriso triste e afagou os cabelos claros, recuando mais um passo e fazendo um gesto com a cabeça, o incentivando a ir na direção dos pais. Noah levou o dedo a boca com uma expressão chateada e deu as costas para a garota, seguindo caminho sozinho, mas parando na metade do percurso e lançando um olhar por cima do ombro apenas para ver que a jovem havia desaparecido.
Entre as árvores, Laurel presenciou a cena emocionante que foi o reencontro entre pais e filho e fechou as mãos e um punho firme para impedir que as lágrimas escorressem de seus olhos. Noah estava errado, aquela não era a sua família, nunca foi, ela era apenas o erro que manchava o bom nome dos Graham e agora os mesmos já tinham o que queriam: uma família perfeita e feliz.
Abriu os olhos, sentindo a luz fraca do ambiente feri-los por alguns segundos e cerrou as pálpebras novamente, achando que assim a sua cabeça doeria menos com esta atitude. Uma risadinha rouca e divertida soou perto do seu ouvido e a jovem abriu novamente os olhos, desta vez alarmada por não reconhecer a voz, e virou o rosto bruscamente, sentindo todo o seu pescoço e coluna latejarem diante do movimento.
- Não faria isto se fosse você. - o tom rouco continuou com divertimento e ela piscou para afastar o torpor e a névoa que a deixavam confusa. Tentou se sentar, mas todos os seus músculos protestaram por causa desta decisão e caiu novamente sobre o que quer que estivesse deitada. - O que foi que eu disse. - franziu os lábios em desagrado e voltou a olhar na direção da voz, agora conseguindo colocar um rosto no som desconhecido.
Sentado ao seu lado havia um homem de meia idade, cabelos negros com vários fios grisalhos, barba por fazer, alto, ombros largos, corpo forte, mãos grandes e calejadas. Usava uma camisa xadrez de flanela e uma calça jeans surrada, um boné de pano estava preso no cós da calça e as botas de couro estavam sujas de lama. Sentado ao lado dele havia um enorme cachorro preto que babava e abanava o rabo enquanto a mirava com lacrimosos olhos castanhos e encostada na cadeira onde estava o homem tinha uma espingarda.
- Mocinha, não sei como foi parar naquele rio, mas digo que deu uma sorte e tanto em sair viva de lá. - comentou o que ela supunha ser um caçador, se o modo de se vestir, a arma, o cachorro e a cabana pela qual agora ela percorria os olhos eram alguma indicação da identidade do homem.
- O rio... - murmurou quase sem voz. O rio! Sentou-se alarmada, ignorando os protestos de dor que o seu corpo deu pelo gesto abrupto. O rio, o penhasco, a Quimera... Thalia! Tinha que encontrar Thalia e as outras Caçadoras. - Eu tenho... - chutou as cobertas, girando as pernas por sobre o colchão e apoiando os pés descalços no chão. Notou com extremo horror que não vestia as suas roupas de caça, suas jeans e jaqueta, mas sim uma das camisas de flanela do caçador e que ficava enorme em seu corpo, e suas bochechas esquentaram.
Um homem a viu nua? Ela esperava por todos os deuses que não. Com que cara olharia para a sua senhora novamente se isso tivesse acontecido? Entretanto, assim que pôs-se de pé foi de joelhos ao chão quando o seu tornozelo esquerdo cedeu sob o peso de seu corpo.
- Era isso o que eu queria te dizer. - o caçador ergueu-se da cadeira e caminhou na direção da jovem, o que a fez abrir os olhos largamente de pavor e recuar se arrastando pelo chão de madeira rústica, fazendo o homem parar de pronto. - Não vou ferir você. - disse em um tom manso. O problema não era ele machucá-la, sabia se defender, com ou sem tornozelo ferido, era o fato de ser um homem a tocando. Mas não podia dizer isto para ele, claro que não.
- Onde estão as minhas roupas? - perguntou em um fio de voz.
- Secando lá fora. - respondeu o homem e Laurel tentou erguer-se mais uma vez, desta vez mais alerta sobre o pé esquerdo e equilibrando-se completamente na perna direita e indo a passos morosos no que ela supôs fosse a saída da cabana. O caçador não a impediu e nem a seguiu, o que foi bem estranho na opinião da garota. Entretanto, quando abriu a porta da casa, ela descobriu por que. Uma tempestade castigava a floresta de maneira brutal e tornava praticamente impossível de alguém enxergar um palmo a frente dos olhos.
- Isso era outra coisa que eu estava tentando te dizer. - Lily lançou um olhar fulminante para o homem por cima do ombro e este apenas lhe sorriu maroto. A garota voltou a mirar a tempestade e rosnou, franzindo as sobrancelhas negras e virando-se sobre o pé bom para encarar o caçador e batendo a porta da cabana atrás de si. Teria que esperar a chuva passar para assim sair em busca de suas irmãs e seus pertences.
Soltou um suspiro. Estava perdida, com um estranho, sem as suas armas e a sua mochila de suprimentos, ferida e incapacitada de viajar por causa de uma tempestade. Sem querer ser mal agradecida, mas os deuses não estavam a favor dela naquele dia.
- Melhor você voltar para a cama mocinha. Ficou dois dias desacordada e delirando de febre. - dois dias? Lily quase teve uma síncope. Nunca ficara tanto tempo fora de combate desde que se tornara uma Caçadora. Havia jurado para si mesma jamais demonstrar fraqueza novamente. E uma simples Quimera conseguiu apagá-la por dois dias? Impressionante!
- Eu... - balbuciou a jovem, mancando de volta para a cama e largando-se sobre o colchão com a respiração ofegante. Somente este pequeno percurso da cama até a porta da cabana a cansara por demais. - Qual o seu nome? - perguntou ao homem que havia lhe dado as costas e ido até um fogão a lenha verificar algo em uma panela que borbulhava e emitia um aroma gostoso.
- Fred. - respondeu de pronto e o cachorro ao lado dele latiu alto para chamar a atenção. - E este grandão aqui é o Lua Nova. - Fred e Lua Nova, pensou Laurel, que duplinha interessante. - E você? - perguntou, mirando intensos olhos de um tom castanho mel sobre a jovem e ela sentiu um arrepio descer pela sua espinha.
- Er... Lily. - apresentou-se, franzindo o cenho levemente. Lily fora o apelido que a sua avó Laura lhe dera quando criança e a velha mulher era a única a chamá-la assim. Depois que tornou-se uma Caçadora, havia deixado toda e qualquer lembrança de sua família para trás, até mesmo esta, e passara a ser chamada apenas de Laurel. Então por que se apresentara desta forma?
- Algum problema? - Fred perguntou enquanto mergulhava uma concha na panela e buscava um punhado de caldo, enchendo uma cumbuca com o mesmo, o levando em seguida para Laurel e a entregando para a garota. A jovem pegou a cumbuca entre as mãos e a mirou desconfiada, o que fez o homem rir. - Não sou um mestre na cozinha, mas dou pro gasto. Pode comer, tenho certeza que está com fome. - como se para afirmar o que dissera o estômago da menina roncou e ela corou de vergonha.
- Obrigada. - levou o caldo a boca, notando que apesar da aparência não ser das melhores, o cheiro ser promissor, o gosto era ótimo e na primeira golada sentiu-se revigorada e aquecida por dentro.
- Agora... - Fred continuou enquanto servia-se do caldo e pegava um pedaço de pão, o partindo ao meio, dando parte para Laurel e ficando com a outra metade e indo se acomodar na cadeira em que estava antes. - Como você foi parar naquele rio? - a mirou curioso e a jovem parou a cumbuca a meio caminho da boca.
- Eu cai.
- Presumi isto. Ninguém em sã consciência se atiraria naquelas águas bravas, ainda mais vestido e nesta época do ano em que o rio está cheio e um gelo. Mas o que me intriga é o que uma jovem como você estava fazendo sozinha na floresta. Onde estão os seus pais? Estava acampando com eles ou algo parecido?
- Por que tanto interesse? - estreitou os olhos desconfiada e Fred lhe sorriu apaziguador, fazendo um gesto com a cabeça e indicando um enorme rádio comunicador que estava sobre uma velha mesa ao fundo da cabana.
- Desde que a tempestade começou estou isolado porque o rádio está com interferência por causa dos raios, fiquei extremamente preocupado porque sua febre não baixava e não tinha como pedir ajuda. Agora que você acordou preciso de informações, se há pessoas te procurando a guarda florestal precisa ser avisada, é o procedimento. - Laurel mordeu o lábio inferior e desviou o olhar para as grossas gotas de chuva que chocavam-se contra o vidro da janela da cabana.
- Não há ninguém me procurando. - ao menos acreditava que não. Ártemis era uma deusa que estava ligada a todas as suas Caçadoras e com certeza sabia que ela estava bem e em boas mãos e se ainda não tinha invadido aquela cabana para resgatá-la até agora era porque a sua situação não era de tamanha emergência. A única coisa que a preocupava era Thalia, não sabia se a irmã estava bem ou não e isso a incomodava.
Fred arqueou as sobrancelhas diante da declaração da jovem e Lua Nova soltou um ganido ao lado de seu mestre, abaixando as orelhas contra a cabeça e encolhendo-se em uma enorme bola de pelos negros. Os olhos castanhos do homem percorreram ao longo da figura da garota, a achando extremamente intrigante. Ela deveria ter o quê? Quatorze? Quinze anos no máximo? E mesmo assim os olhos esverdeados emitiam um brilho de uma mulher madura que vira e experimentara muito mais da vida.
- Talvez seja melhor você descansar mais. - falou o homem depois de minutos de silêncio, retirando a cumbuca agora vazia das mãos da adolescente.
- Mas... - Lily tentou protestar, dormira por dois dias seguidos e com certeza metade das dores no seu corpo foram causadas pelo excesso de tempo na cama.
- Durma. - ordenou Fred e ela ainda tentou contrariar, mas sentiu-se subitamente cansada e um bocejo escapou de sua boca, a fazendo deitar a contragosto na cama e adormecer logo em seguida. Assim que viu os olhos verdes serem escondidos pelas pálpebras da jovem, Fred sorriu, puxando o cobertor e a cobrindo.
Lua Nova latiu ao seu lado e o homem lançou um olhar traquinas para o cachorro, afagando a cabeça peluda e o animal remexeu-se contrariado, afastando a mão de si e rosnando para o dono. Fred gargalhou, recuando um passo divertido.
- Que mau humor irmãzinha. - brincou e o rosnado do cão aumentou até que ele calou-se e aos poucos as patas foram sendo substituídas por braços e pernas e pelos negros por pele alva e cabelos ruivos.
- Não me chame de irmãzinha. - Fred riu mais ainda e a menina de doze anos o fuzilou com o olhar e depois fez um "shush" entre os dentes. - Vai acordá-la. - os olhos castanho mel de Fred aos poucos foram clareando até adquirirem uma tonalidade azul como o céu límpido da manhã, os cabelos antes escuros e com fios grisalhos também ficaram claros, dourados como os raios de sol, o rosto com barba por fazer e marcado pelo tempo tornou-se jovial, de um adolescente, e as roupas gastas de caçador foram trocadas por vestimentas mais esportivas e de grife.
- Então - o agora caçador adolescente encaminhou-se para a cadeira, a mirando com desgosto e em um estalar de dedos a transformou em um confortável sofá de couro, sentando-se no mesmo. - por quanto tempo você quer que eu banque a babá?
- Pelo tempo que for preciso. Preciso que Laurel... - a menina ruiva disse e arqueou as sobrancelhas quando viu o jovem retesar os ombros e fazer uma expressão estranha ao ouvir o nome.
- Laurel? Ela me disse que o nome dela era Lily. - o homem lançou um olhar para a adolescente que dormia um sono profundo sobre a cama.
- Lily quando ainda era uma simples mortal. Agora a chamamos de Laurel, que é o nome dela mesmo. - a ruiva deu de ombros, caminhando até a cama onde a garota dormia e sentando-se na beirada da mesma.
- Ainda não me respondeu irmãzinha. - a menina de doze anos rangeu os dentes. - Por quanto tempo terei que bancar a babá? Aliás, - o adolescente estreitou os olhos azuis para a gêmea. - muito suspeito você estar deixando uma de suas adoradas Caçadoras sob a minha guarda. Por que disso? - Ártemis deu um sorriso enigmático e ergueu-se da cama, ajeitando displicente as suas roupas sem encarar o homem sentado no sofá de couro na sua frente.
- Oras, você não é o deus das profecias? Então... Adivinhe. - debochou e desapareceu em um clarão sem dizer mais nenhuma palavra.
Apolo piscou abobalhado diante das palavras da irmã, não acreditando que a mesma lhe passara a perna, e depois voltou o olhar para a adolescente que dormia na cama que ele conjurara especialmente para ela. Laurel resmungara alguma coisa em seu sono e virara-se sobre o colchão a procura de uma posição mais confortável, esticando a cabeça sobre o travesseiro e deixando parte do pescoço alvo a mostra onde algo chamou a atenção do deus.
Um cordão de ouro estava preso ao pescoço da jovem com um pingente de esmeralda em forma de folha. Curioso... Fora a falecida Zöe que ostentara um diadema na cabeça sinal de sua posição como tenente, não era costume das Caçadoras usarem joias. Elas eram guerreiras, mesmo que tivessem a postura e arrogância de princesas, e portanto a vaidade era a última coisa que se passava pela cabeça delas. Até porque elas não gostavam de chamar atenção. Então para uma estar usando uma joia era bem estranho.
Soltou um suspiro, recostando-se no sofá e cruzando os braços sobre o peito. Não entendia até agora o porquê de sua irmã ter pedido que abrigasse a Caçadora depois da mesma ter se ferido após lutar com uma Quimera. Aliás, ele presenciara a luta e fora um embate e tanto, mas sabia que a sua gêmea estava aprontando, e alguma das grandes, já que não era do feitio de Ártemis pregar peças. O melhor então era ficar com os dois olhos bem abertos e todos os sentidos em alerta. Era o deus das profecias, não era? Conseguiria prever qualquer armadilha de sua irmãzinha. Certo? Ou ao menos assim esperava.
Sentiu algo esbarrar em suas pernas e baixou o olhar, sendo cumprimentada por um par de olhos castanhos claros na face rubra e arredondada de um menino de três anos. O garoto sorriu, lhe mostrando os recentes dentes de leite e depois levando o dedão da mão direita a boca. Não conseguiu segurar o sorriso que brotou em seu rosto e suavemente ajoelhou-se no chão para ficar na mesma altura que o garotinho.
- Está perdido? - perguntou em tom suave para não assustar o menino, enquanto ao mesmo tempo rodava os seus olhos pela multidão a procura de alguma pista de quem poderia ser os pais daquela criança. - Qual é o seu nome? - continuou, ainda com o sorriso simpático e o menino tirou o dedo da boca.
- Noah. - respondeu tímido e a jovem arqueou as sobrancelhas. Noah. O nome era bonito, mas não lhe trazia boas lembranças. Noah fora o nome de seu falecido avô. Assim como fora o nome de seu pai.
- Onde estão os seus pais, Noah? - o garoto sacudiu a cabeça em negativa, claramente dizendo que não sabia, e a garota suspirou, erguendo-se do chão e depositando uma mão sobre os cabelos claros da criança, voltando a rodar os olhos pela multidão a procura de algum casal que mostrasse clara indicação de estar inquieto por algum motivo aparente. O sumiço do filho por exemplo.
- Eu conheço você. - Noah continuou em seu timbre agudo e infantil e os orbes verde oliva voltaram-se para ele. - Tem uma foto sua na casa da vovó. - franziu o cenho ao ouvir isto e voltou a se ajoelhar em frente ao menino.
- Casa da vovó? - segurou suavemente os ombros dele e o garotinho assentiu com a cabeça.
- Vovó Laura sempre chora quando olha para a sua foto. - a adolescente engoliu em seco e arregalou os olhos, soltando os ombros do menino como se ele estivesse pegando fogo e afastando-se um pouco dele para mirá-lo melhor. Como não pôde perceber a semelhança? Os mesmos cabelos claros, o nariz era igual, assim como a boca e os olhos. Sem contar o nome que era mais do que suspeito.
- Venha! - falou, erguendo-se num impulso. - Vou levá-lo a estação dos seguranças, eles vão ajudá-lo a encontrar os seus pais. - estendeu uma mão para ele e ofegou quando sentiu os dedos pequenos e macios tocarem os seus. Seu coração pulava no peito enquanto caminhava guiando o menino até o posto onde ficavam os seguranças daquele parque e quando aproximou-se da construção pôde ver duas figuras familiares que gesticulavam largamente para os homens uniformizados.
- Mamãe e papai. - Noah sorriu ao reconhecer o casal ao longe que parecia bem aflito e automaticamente a jovem soltou a mão do pequeno que a mirou confuso. - Você não vem? - ela lhe sorriu e sacudiu a cabeça em negativa, dando um passo para trás.
- Não.
- Mas é a sua família também. - algo entalou na garganta da garota ao ouvir tais palavras vindas de alguém tão novo. O menino era mais esperto do que aparentava ser e tinha captado as coisas rápido demais para alguém que a conhecera apenas há alguns minutos.
- Não mais. - lhe deu um sorriso triste e afagou os cabelos claros, recuando mais um passo e fazendo um gesto com a cabeça, o incentivando a ir na direção dos pais. Noah levou o dedo a boca com uma expressão chateada e deu as costas para a garota, seguindo caminho sozinho, mas parando na metade do percurso e lançando um olhar por cima do ombro apenas para ver que a jovem havia desaparecido.
Entre as árvores, Laurel presenciou a cena emocionante que foi o reencontro entre pais e filho e fechou as mãos e um punho firme para impedir que as lágrimas escorressem de seus olhos. Noah estava errado, aquela não era a sua família, nunca foi, ela era apenas o erro que manchava o bom nome dos Graham e agora os mesmos já tinham o que queriam: uma família perfeita e feliz.
Abriu os olhos, sentindo a luz fraca do ambiente feri-los por alguns segundos e cerrou as pálpebras novamente, achando que assim a sua cabeça doeria menos com esta atitude. Uma risadinha rouca e divertida soou perto do seu ouvido e a jovem abriu novamente os olhos, desta vez alarmada por não reconhecer a voz, e virou o rosto bruscamente, sentindo todo o seu pescoço e coluna latejarem diante do movimento.
- Não faria isto se fosse você. - o tom rouco continuou com divertimento e ela piscou para afastar o torpor e a névoa que a deixavam confusa. Tentou se sentar, mas todos os seus músculos protestaram por causa desta decisão e caiu novamente sobre o que quer que estivesse deitada. - O que foi que eu disse. - franziu os lábios em desagrado e voltou a olhar na direção da voz, agora conseguindo colocar um rosto no som desconhecido.
Sentado ao seu lado havia um homem de meia idade, cabelos negros com vários fios grisalhos, barba por fazer, alto, ombros largos, corpo forte, mãos grandes e calejadas. Usava uma camisa xadrez de flanela e uma calça jeans surrada, um boné de pano estava preso no cós da calça e as botas de couro estavam sujas de lama. Sentado ao lado dele havia um enorme cachorro preto que babava e abanava o rabo enquanto a mirava com lacrimosos olhos castanhos e encostada na cadeira onde estava o homem tinha uma espingarda.
- Mocinha, não sei como foi parar naquele rio, mas digo que deu uma sorte e tanto em sair viva de lá. - comentou o que ela supunha ser um caçador, se o modo de se vestir, a arma, o cachorro e a cabana pela qual agora ela percorria os olhos eram alguma indicação da identidade do homem.
- O rio... - murmurou quase sem voz. O rio! Sentou-se alarmada, ignorando os protestos de dor que o seu corpo deu pelo gesto abrupto. O rio, o penhasco, a Quimera... Thalia! Tinha que encontrar Thalia e as outras Caçadoras. - Eu tenho... - chutou as cobertas, girando as pernas por sobre o colchão e apoiando os pés descalços no chão. Notou com extremo horror que não vestia as suas roupas de caça, suas jeans e jaqueta, mas sim uma das camisas de flanela do caçador e que ficava enorme em seu corpo, e suas bochechas esquentaram.
Um homem a viu nua? Ela esperava por todos os deuses que não. Com que cara olharia para a sua senhora novamente se isso tivesse acontecido? Entretanto, assim que pôs-se de pé foi de joelhos ao chão quando o seu tornozelo esquerdo cedeu sob o peso de seu corpo.
- Era isso o que eu queria te dizer. - o caçador ergueu-se da cadeira e caminhou na direção da jovem, o que a fez abrir os olhos largamente de pavor e recuar se arrastando pelo chão de madeira rústica, fazendo o homem parar de pronto. - Não vou ferir você. - disse em um tom manso. O problema não era ele machucá-la, sabia se defender, com ou sem tornozelo ferido, era o fato de ser um homem a tocando. Mas não podia dizer isto para ele, claro que não.
- Onde estão as minhas roupas? - perguntou em um fio de voz.
- Secando lá fora. - respondeu o homem e Laurel tentou erguer-se mais uma vez, desta vez mais alerta sobre o pé esquerdo e equilibrando-se completamente na perna direita e indo a passos morosos no que ela supôs fosse a saída da cabana. O caçador não a impediu e nem a seguiu, o que foi bem estranho na opinião da garota. Entretanto, quando abriu a porta da casa, ela descobriu por que. Uma tempestade castigava a floresta de maneira brutal e tornava praticamente impossível de alguém enxergar um palmo a frente dos olhos.
- Isso era outra coisa que eu estava tentando te dizer. - Lily lançou um olhar fulminante para o homem por cima do ombro e este apenas lhe sorriu maroto. A garota voltou a mirar a tempestade e rosnou, franzindo as sobrancelhas negras e virando-se sobre o pé bom para encarar o caçador e batendo a porta da cabana atrás de si. Teria que esperar a chuva passar para assim sair em busca de suas irmãs e seus pertences.
Soltou um suspiro. Estava perdida, com um estranho, sem as suas armas e a sua mochila de suprimentos, ferida e incapacitada de viajar por causa de uma tempestade. Sem querer ser mal agradecida, mas os deuses não estavam a favor dela naquele dia.
- Melhor você voltar para a cama mocinha. Ficou dois dias desacordada e delirando de febre. - dois dias? Lily quase teve uma síncope. Nunca ficara tanto tempo fora de combate desde que se tornara uma Caçadora. Havia jurado para si mesma jamais demonstrar fraqueza novamente. E uma simples Quimera conseguiu apagá-la por dois dias? Impressionante!
- Eu... - balbuciou a jovem, mancando de volta para a cama e largando-se sobre o colchão com a respiração ofegante. Somente este pequeno percurso da cama até a porta da cabana a cansara por demais. - Qual o seu nome? - perguntou ao homem que havia lhe dado as costas e ido até um fogão a lenha verificar algo em uma panela que borbulhava e emitia um aroma gostoso.
- Fred. - respondeu de pronto e o cachorro ao lado dele latiu alto para chamar a atenção. - E este grandão aqui é o Lua Nova. - Fred e Lua Nova, pensou Laurel, que duplinha interessante. - E você? - perguntou, mirando intensos olhos de um tom castanho mel sobre a jovem e ela sentiu um arrepio descer pela sua espinha.
- Er... Lily. - apresentou-se, franzindo o cenho levemente. Lily fora o apelido que a sua avó Laura lhe dera quando criança e a velha mulher era a única a chamá-la assim. Depois que tornou-se uma Caçadora, havia deixado toda e qualquer lembrança de sua família para trás, até mesmo esta, e passara a ser chamada apenas de Laurel. Então por que se apresentara desta forma?
- Algum problema? - Fred perguntou enquanto mergulhava uma concha na panela e buscava um punhado de caldo, enchendo uma cumbuca com o mesmo, o levando em seguida para Laurel e a entregando para a garota. A jovem pegou a cumbuca entre as mãos e a mirou desconfiada, o que fez o homem rir. - Não sou um mestre na cozinha, mas dou pro gasto. Pode comer, tenho certeza que está com fome. - como se para afirmar o que dissera o estômago da menina roncou e ela corou de vergonha.
- Obrigada. - levou o caldo a boca, notando que apesar da aparência não ser das melhores, o cheiro ser promissor, o gosto era ótimo e na primeira golada sentiu-se revigorada e aquecida por dentro.
- Agora... - Fred continuou enquanto servia-se do caldo e pegava um pedaço de pão, o partindo ao meio, dando parte para Laurel e ficando com a outra metade e indo se acomodar na cadeira em que estava antes. - Como você foi parar naquele rio? - a mirou curioso e a jovem parou a cumbuca a meio caminho da boca.
- Eu cai.
- Presumi isto. Ninguém em sã consciência se atiraria naquelas águas bravas, ainda mais vestido e nesta época do ano em que o rio está cheio e um gelo. Mas o que me intriga é o que uma jovem como você estava fazendo sozinha na floresta. Onde estão os seus pais? Estava acampando com eles ou algo parecido?
- Por que tanto interesse? - estreitou os olhos desconfiada e Fred lhe sorriu apaziguador, fazendo um gesto com a cabeça e indicando um enorme rádio comunicador que estava sobre uma velha mesa ao fundo da cabana.
- Desde que a tempestade começou estou isolado porque o rádio está com interferência por causa dos raios, fiquei extremamente preocupado porque sua febre não baixava e não tinha como pedir ajuda. Agora que você acordou preciso de informações, se há pessoas te procurando a guarda florestal precisa ser avisada, é o procedimento. - Laurel mordeu o lábio inferior e desviou o olhar para as grossas gotas de chuva que chocavam-se contra o vidro da janela da cabana.
- Não há ninguém me procurando. - ao menos acreditava que não. Ártemis era uma deusa que estava ligada a todas as suas Caçadoras e com certeza sabia que ela estava bem e em boas mãos e se ainda não tinha invadido aquela cabana para resgatá-la até agora era porque a sua situação não era de tamanha emergência. A única coisa que a preocupava era Thalia, não sabia se a irmã estava bem ou não e isso a incomodava.
Fred arqueou as sobrancelhas diante da declaração da jovem e Lua Nova soltou um ganido ao lado de seu mestre, abaixando as orelhas contra a cabeça e encolhendo-se em uma enorme bola de pelos negros. Os olhos castanhos do homem percorreram ao longo da figura da garota, a achando extremamente intrigante. Ela deveria ter o quê? Quatorze? Quinze anos no máximo? E mesmo assim os olhos esverdeados emitiam um brilho de uma mulher madura que vira e experimentara muito mais da vida.
- Talvez seja melhor você descansar mais. - falou o homem depois de minutos de silêncio, retirando a cumbuca agora vazia das mãos da adolescente.
- Mas... - Lily tentou protestar, dormira por dois dias seguidos e com certeza metade das dores no seu corpo foram causadas pelo excesso de tempo na cama.
- Durma. - ordenou Fred e ela ainda tentou contrariar, mas sentiu-se subitamente cansada e um bocejo escapou de sua boca, a fazendo deitar a contragosto na cama e adormecer logo em seguida. Assim que viu os olhos verdes serem escondidos pelas pálpebras da jovem, Fred sorriu, puxando o cobertor e a cobrindo.
Lua Nova latiu ao seu lado e o homem lançou um olhar traquinas para o cachorro, afagando a cabeça peluda e o animal remexeu-se contrariado, afastando a mão de si e rosnando para o dono. Fred gargalhou, recuando um passo divertido.
- Que mau humor irmãzinha. - brincou e o rosnado do cão aumentou até que ele calou-se e aos poucos as patas foram sendo substituídas por braços e pernas e pelos negros por pele alva e cabelos ruivos.
- Não me chame de irmãzinha. - Fred riu mais ainda e a menina de doze anos o fuzilou com o olhar e depois fez um "shush" entre os dentes. - Vai acordá-la. - os olhos castanho mel de Fred aos poucos foram clareando até adquirirem uma tonalidade azul como o céu límpido da manhã, os cabelos antes escuros e com fios grisalhos também ficaram claros, dourados como os raios de sol, o rosto com barba por fazer e marcado pelo tempo tornou-se jovial, de um adolescente, e as roupas gastas de caçador foram trocadas por vestimentas mais esportivas e de grife.
- Então - o agora caçador adolescente encaminhou-se para a cadeira, a mirando com desgosto e em um estalar de dedos a transformou em um confortável sofá de couro, sentando-se no mesmo. - por quanto tempo você quer que eu banque a babá?
- Pelo tempo que for preciso. Preciso que Laurel... - a menina ruiva disse e arqueou as sobrancelhas quando viu o jovem retesar os ombros e fazer uma expressão estranha ao ouvir o nome.
- Laurel? Ela me disse que o nome dela era Lily. - o homem lançou um olhar para a adolescente que dormia um sono profundo sobre a cama.
- Lily quando ainda era uma simples mortal. Agora a chamamos de Laurel, que é o nome dela mesmo. - a ruiva deu de ombros, caminhando até a cama onde a garota dormia e sentando-se na beirada da mesma.
- Ainda não me respondeu irmãzinha. - a menina de doze anos rangeu os dentes. - Por quanto tempo terei que bancar a babá? Aliás, - o adolescente estreitou os olhos azuis para a gêmea. - muito suspeito você estar deixando uma de suas adoradas Caçadoras sob a minha guarda. Por que disso? - Ártemis deu um sorriso enigmático e ergueu-se da cama, ajeitando displicente as suas roupas sem encarar o homem sentado no sofá de couro na sua frente.
- Oras, você não é o deus das profecias? Então... Adivinhe. - debochou e desapareceu em um clarão sem dizer mais nenhuma palavra.
Apolo piscou abobalhado diante das palavras da irmã, não acreditando que a mesma lhe passara a perna, e depois voltou o olhar para a adolescente que dormia na cama que ele conjurara especialmente para ela. Laurel resmungara alguma coisa em seu sono e virara-se sobre o colchão a procura de uma posição mais confortável, esticando a cabeça sobre o travesseiro e deixando parte do pescoço alvo a mostra onde algo chamou a atenção do deus.
Um cordão de ouro estava preso ao pescoço da jovem com um pingente de esmeralda em forma de folha. Curioso... Fora a falecida Zöe que ostentara um diadema na cabeça sinal de sua posição como tenente, não era costume das Caçadoras usarem joias. Elas eram guerreiras, mesmo que tivessem a postura e arrogância de princesas, e portanto a vaidade era a última coisa que se passava pela cabeça delas. Até porque elas não gostavam de chamar atenção. Então para uma estar usando uma joia era bem estranho.
Soltou um suspiro, recostando-se no sofá e cruzando os braços sobre o peito. Não entendia até agora o porquê de sua irmã ter pedido que abrigasse a Caçadora depois da mesma ter se ferido após lutar com uma Quimera. Aliás, ele presenciara a luta e fora um embate e tanto, mas sabia que a sua gêmea estava aprontando, e alguma das grandes, já que não era do feitio de Ártemis pregar peças. O melhor então era ficar com os dois olhos bem abertos e todos os sentidos em alerta. Era o deus das profecias, não era? Conseguiria prever qualquer armadilha de sua irmãzinha. Certo? Ou ao menos assim esperava.
IRLANDA - 6 meses antes
- Desculpe! - veio o pedido logo assim que o ombro encontrou-se com o seu braço, mas ela pouco se importou, apenas quis seguir o seu caminho e isto faria se uma mão não tivesse segurado bruscamente o seu pulso e a feito parar no lugar. - Espera! - os olhos verde oliva estreitaram ao mirarem a mulher de cima a baixo, a avaliando com desconfiança. Sua primeira reação seria a de sacar uma de suas sai para se defender, mas estavam em uma rua movimentada e não queria chamar a atenção de ninguém.
- Posso ajudá-la? - resolveu seguir a tática comum de fazer-se de desentendida.
- Lily Graham... É você? - a estranha balbuciou com os olhos escuros largos de choque e a jovem franziu as sobrancelhas, recuando um passo e tentando soltar-se do aperto que eram os dedos dela em seu pulso. - Não - a mulher riu de maneira nervosa. - se passaram dez anos, você deveria estar com vinte e quatro. Me desculpe. - pediu, finalmente a soltando e a menina recuou aos tropeços.
- Está tudo bem. - falou, esfregando o pulso dolorido e mirando a desconhecida atentamente. Ela lhe era familiar, mas onde a tinha visto antes? Sem contar que a mulher a reconhecera, ou ao menos pensou que a reconhecera.
- Eu... É que... - passou os dedos trêmulos por entre os cachos loiros e soltou um longo suspiro. - Lily é o meu fantasma, sabe. - começou a dizer para o completo estranhamento da adolescente.
- Er... Senhora... - Laurel balbuciou, querendo cortar qualquer conversa que a mulher estivesse disposta a engajar. Primeiro que não estava ali para bater papo, segundo que nem a conhecia. Ou talvez a conhecia, mas não se lembrava dela.
- Pâmela Johnson. - apresentou-se e a morena se segurou para não dar um ofego. Pam Johnson: o seu pesadelo de infância. Se fechasse os olhos ainda podia se lembrar da cena da bela loira abraçada a Chris Hail e caçoando dela, junto com os outros colegas de turma, depois de pregarem uma brincadeira de mau gosto sobre a sua pessoa. - Se não fosse tão pouco tempo eu diria que você poderia ser a filha da Lily... Mas creio que isso é impossível. - sacudiu a cabeça com pesar.
- A senhora e essa Lily... Eram amigas? - perguntou hesitante, curiosa em saber a resposta da mulher. Já que ela a tinha parado, puxado conversa e começado a desabafar seus pecados, não custava nada tentar descobrir um pouco o que acontecera depois de sua partida. Sempre teve curiosidade para saber como ficaram todos depois que largara a sua vida para trás para tornar-se uma Caçadora, mas nunca tivera coragem de voltar a Escócia e investigar. Fora a única vez em que trombara sem querer com o seu meio-irmão em um Parque Nacional nos EUA, depois deste dia, nunca mais.
- Não. Ela foi uma menina... Uma menina... Que tinha potencial.
- Tinha? O que aconteceu com ela? - Pam deu de ombros.
- Várias são as teorias, nenhuma são as respostas. A teoria da polícia é que ela fugiu de casa, outra foi sequestro. Os boatos na nossa antiga escola eram a de que ela se matou... - um tremor passou pelo corpo de Pâmela ao dizer isso. Se matar? Laurel quase riu. Está certo que ela foi judiada e humilhada pelos colegas, mas nunca passou pela sua cabeça se matar. A senhora Ártemis lhe dissera que era essa determinação de aguentar tudo sem protestar que chamou a atenção da deusa para ela e a fez ser escolhida para ser Caçadora.
- Parece que a senhora se culpa, caso ela tenha realmente se matado. - Lily atestou e Pam fez uma expressão sofrida que foi resposta o suficiente para a jovem. - E o fato de eu ser parecida com ela a fez pensar que poderia se redimir dos seus pecados. - continuou e a mulher sentiu como se tivesse levado uma facada no coração. - Sinto muito se não posso ajudá-la.
- Eu sei. - suspirou e Laurel deu as costas para seguir o seu caminho, mas parou abruptamente e virou-se para encarar a ex-colega de escola.
- Só por curiosidade... Se você a reencontrasse, o que exatamente diria a ela?
- Perdão. - foi a única coisa que Pâmela respondeu e Lily assentiu com a cabeça. - Acha que ela me perdoaria? - perguntou quando viu a menina afastar-se.
- Por que não. - Lily deu de ombros e sorriu para a mulher que sorriu de volta e retornou a andar, encontrando Thalia no meio do percurso.
- Quem era aquela? - perguntou a semi-deusa, olhando por cima do ombro da jovem a loira a distância que tinha um sorriso no rosto e lágrimas escorrendo dos olhos escuros.
- Ninguém... Ninguém.
EUA - presente
- Por que não? - Laurel cruzou os braços sobre o peito em um gesto desafiador e fuzilou o caçador com o olhar, franzindo as sobrancelhas negras e mordendo o lábio inferior em uma clara expressão de desagrado. - A chuva melhorou! - acusou, apontando janela afora para a floresta coberta por uma densa neblina por causa da queda de temperatura mas que não era mais escondida pelos grossos pingos de chuva.
- E o solo está escorregadio, há queda de barreiras e o rio subiu o nível, o que torna arriscado atravessar alguns trechos com ponte para te levar a cidade mais próxima. - Fred suspirou exasperado e esfregou os olhos com as pontas dos dedos. Se fosse capaz de ter dor de cabeça, com certeza uma estaria brotando agora mesmo em suas têmporas. Desde que acordou que Lily estava resmungando que queria ir embora, havia mais do que depressa trocado a camisa de flanela que vestia pelas suas roupas de Caçadora e exigido que fosse levada para a cidade mais próxima visto que a chuva tinha estiado. E desde esta hora que o homem estava tentando explicar para a garota teimosa o quanto isto era inviável.
- Se não vai me levar de carro... - levantou-se da cama onde estava sentada em um pulo. - eu vou a pé! - falou decidida, indo mancando na direção da porta e o homem considerou uma boa opção bater com a testa contra a parede de madeira da cabana só para saber que som o gesto iria fazer. Lembrava vagamente de Laurel das poucas vezes que encontrara-se com a sua irmã e suas Caçadoras e não trocara nem duas palavras com ela, mas jurava que a distância ela era uma candura de menina.
- Laurel Graham! - a voz ecoou pelo diminuto espaço que consistia aquela cabana e a jovem estacou no lugar com os olhos largos e a respiração entalada na garganta. Trêmula, virou-se sobre os pés com medo do que acharia atrás de si e ofegou ao ver que agora quem se encontrava na sua frente não era mais o sisudo caçador Fred, mas sim um jovem de dezoito anos, cabelos claros, porte atlético, pele dourada de sol e expressão fechada.
- Senhor Apolo! - falou horrorizada, caindo de joelhos no chão em uma reverência e ignorando a fisgada que o seu tornozelo ferido deu por causa de tal gesto.
- Oras, levante-se! - Apolo ordenou, rolando os olhos e Laurel não mexeu um músculo. - Levante-se! - disse em um tom mais imperioso e a garota finalmente se mexeu.
- Mil perdões senhor Apolo eu não sabia... - calou-se, franzindo o cenho. - Por que, pelos deuses, o senhor está aqui? - toda a postura subserviente da garota desapareceu e ela cruzou novamente os braços sobre o peito em um gesto desafiador e Apolo deu um sorriso sem graça diante da estupidez de ter revelado a sua identidade somente por ter perdido a paciência. Bem que Ártemis dissera que ele era péssimo para guardar segredos e pavio curto demais. Mas a culpa era dela que o encarregara deste trabalho em primeiro lugar.
- Irmãzinha Ártemis pediu para ficar de olho em você. - explicou-se e Laurel torceu os lábios. A deusa, então, sabia onde ela estava e o que tinha lhe acontecido. Então por que não a levara de volta ao acampamento das Caçadoras como era o de praxe? Por que a isolara em uma cabana no meio da floresta com o deus-sol como o seu guardião?
- Pelos deuses... - ofegou, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos e caminhou até a cama, largando-se sobre o colchão mole como um peso morto.
- Ei... - Apolo surpreendeu-se diante da mudança repentina de humor da garota. - O que há de errado?
- Eu desonrei a minha senhora. - choramingou, fungando longamente e escondendo o rosto entre as mãos.
- O quê? - desesperou-se o deus.
- É a única explicação para ela ter me largado aqui com você. - disse em um tom sofrido, com os ombros tremendo por causa do choro.
- Oi! Minha companhia não é tão ruim assim. - Apolo reclamou. - E você não fez nada que contrariou Ártemis, posso garantir. Na verdade, pelo contrário, ela está bem orgulhosa. Você derrotou a Quimera.
- Então por que...
- Eu não sei... Ela não me disse.
- O senhor não sabe? - Laurel ergueu a cabeça de entre as mãos e o mirou com desconfiança. - O senhor é o deus das profecias.
- Quer parar de jogar isto na minha cara? Eu sei...
- Então por que...
- Eu não sei!
- Que ajuda. - suspirou e rolou os olhos, enxugando com as costas das mãos as lágrimas do rosto e mirando o deus intensamente, torcendo os lábios em desagrado. Não queria contestar as decisões de sua senhora, mas até onde sabia Ártemis jamais foi de confiar qualquer uma de suas Caçadoras a outro deus, menos ainda se esse deus fosse o próprio irmão. Será que estava sendo punida por alguma coisa que fizera e da qual não se lembrava? Será que bateu com a cabeça durante a queda?
- Você não tem amnésia, se é isso que a preocupa. E não creio que a minha irmãzinha a esteja punindo.
- Como o senhor... - calou-se. Que pergunta estúpida. Ele era um olimpiano, óbvio que saberia o que ela estava pensando.
- Mas ela me deu ordens de mantê-la aqui até retornar. - completou e segurou um sorriso quando viu os olhos verdes estreitarem em desagrado. Laurel soltou mais um bufo e cruzou os braços sobre o peito, virando o rosto para mirar janela afora. A chuva que antes cessara retornara como uma garoa fina que fazia o frio na floresta crescer e a umidade aumentar a névoa, a tornando tão densa que dificultava ver as árvores. Com a expressão ainda fechada ela voltou a atenção para o deus sentado, quieto, na sua frente.
- O senhor não deveria estar guiando o carro do sol há essa hora? - Apolo deu como resposta a pergunta da garota um sorriso tão largo que fez a menina ruborizar ao ver os dentes brancos e perfeitos sendo exibidos como em um comercial de pasta de dente.
- O carro do sol está cumprindo o seu trabalho perfeitamente bem no piloto automático, não precisa de mim o supervisionando. Sabe como é enjoativo ver a mesma paisagem todos os dias, por milhares e milhares de anos? Zeus abençoe a tecnologia moderna. - um trovão estourou ao longe e o deus riu. - E já vai anoitecer. E você sabe que a noite não é mais minha jurisdição. - deu uma piscadela para ela e a jovem ficou ainda mais vermelha diante do tom de flerte do deus adolescente.
- Irmão, o que eu já lhe falei sobre flertar com as minhas Caçadoras? - a voz contrariada e em tom de repreensão soou perto da porta e Laurel ergueu-se da cama em um pulo, pondo-se de joelhos no chão em um gesto respeitoso e com o coração aos galopes no peito.
- Senhora Ártemis. - falou em um fio de voz enquanto a menina aproximava-se da outra adolescente e depositava a mão sobre os fios castanho escuro dos cabelos dela.
- Levante-se Laurel. - ordenou com suavidade e a Caçadora levantou-se com os olhos marejados mirando a deusa.
- Minha senhora, perdoe qualquer que tenha sido a minha indiscrição...
- Por que acha que me desagradou Laurel? - Ártemis franziu as sobrancelhas ruivas.
- Porque... - a escocesa lançou um olhar para Apolo que parecia divertir-se com a cena do encontro das duas. - a senhora me deixou aqui sob a guarda do senhor Apolo, então eu pensei...
- Que eu a estivesse castigando por algo? - Ártemis riu. - Oras irmão... Sua fama anda ruim, para a minha Caçadora achar que estar na sua presença seja um castigo divino. - Apolo soltou uma risada forçada, indicando claramente que não achara graça da piada. - Não foi por isso que pedi que ele cuidasse de você, minha cara.
- Não? - Laurel sentiu o coração desacelerar. Se não tinha desagradado a sua senhora, então o que fazia ali com o deus em vez de estar junto com as suas irmãs no acampamento das Caçadoras?
- Thalia relatou que você e ela foram atacadas durante a caça ao cervo - Lily assentiu com a cabeça, suspirando aliviada ao saber que Thalia estava bem. - e aparentemente vocês não foram as únicas. Vários ataques de monstros foragidos desde a guerra contra Cronos ocorreram no mesmo momento que o de vocês. Senti quando você foi ferida, mas não haveria como nos locomover no estado em que você estava e muito menos poderíamos ficar paradas esperando por sua recuperação, por isso pedi a meu irmão que cuidasse de você. - explicou-se para tirar qualquer dúvida e temor da mente da jovem.
- Senhora... - Laurel deu um passo a frente para sussurrar no ouvido da deusa. - por que logo ele? - e lançou um olhar de esguelha para Apolo que mirava o teto da cabana como se esse tivesse algo muito interessante para se observar, fingindo não prestar atenção na conversa delas. Ártemis suspirou e rolou os olhos.
- Bem, meu irmão pode ser um idiota irresponsável...
- Ei! - o deus protestou diante da ofensa.
- Mas ele ainda, entre tantos atributos, tem em seu currículo a qualidade de deus da cura. - Lily assentiu com a cabeça. Havia se esquecido deste detalhe. Apolo nos tempos antigos não era apenas o deus-sol, também era venerado por suas outras habilidades, como as profecias, a inspiração e a cura.
- E agora minha senhora?
- Agora você ficará aqui mais esta noite. - Laurel sentiu o coração despencar até o estômago ao ouvir esta ordem. Como assim teria que ficar mais uma noite na presença de Apolo? - Você ainda não está cem por cento. Amanhã quando amanhecer meu irmão a levará para o acampamento das Caçadoras.
- Mas senhora... - tentou protestar mas um olhar dos orbes prateados de Ártemis foi o suficiente para fazê-la se calar. - Sim senhora. - a deusa assentiu com a cabeça e Laurel rapidamente fechou os olhos quando ela brilhou e desapareceu.
- Então! - Apolo bateu palmas, chamando a atenção da garota para ele. - Mais uma noite somente você e eu... - e parou com um gesto dramático, estendendo a mão com a palma erguida como se pedindo silêncio. - Estou sentindo a vinda de um haicai. - Laurel gemeu. Será que era muito tarde para se jogar naquele rio de novo e deixar a correnteza levá-la?
Ela era o erro. Sabia disso, via esta acusação cada vez que mirava os olhos escuros de sua madrasta. Era o erro que existia para humilhar diariamente a mulher de maneira vergonhosa. Durante os jantares sociais, as festas familiares, os encontros de negócio, os chás de senhoras. Era só aparecer no mesmo ambiente que logo os olhares caíam sobre a sua figura e os cochichos começavam. E eram sempre os mesmos.
- Lily Graham... - alguém dizia.
- Não se parece em nada com o pai. - outra pessoa completava maldosamente. - Eles têm certeza que é uma Graham?
- Fizeram testes de DNA, foram positivos. - um terceiro entrava na conversa. - Além do mais, com todas as indiscrições do Lorde Graham, não me surpreendo disto ter acontecido. Mais cedo ou mais tarde uma criança iria aparecer. - e risadas de deboche vinham logo após este comentário.
- Meredith deve estar possessa. Todos esses anos tentando dar um herdeiro para os Graham e uma qualquer de fora conseguiu o que ela não foi capaz. - mais risadas.
E essa era a sua história. Sua existência consistia do resultado de um dos vários casos extraconjugais de seu pai que acabou com um bebê recém nascido nos degraus da porta da frente da Mansão Graham, bem protegido em um cesto feito de parreiras e vime e envolto em lençol de seda. Testes foram feitos para confirmar a paternidade da menina, investigações foram feitas a procura da mãe da criança e no fim veio a aceitação de que aquele escândalo e responsabilidade seria a ferida da família Graham pelo resto da vida.
Com isto Lily cresceu sendo o espinho que incomodava diariamente Meredith e Noah, casal que fazia questão de fingir que ela não existia naquela casa. Não existia na mesa do café manhã, do almoço, do jantar. Se teve uma boa educação, vestimentas e algum carinho na vida, estes vieram da sua avó Laura que considerava a arrogância do filho e da nora algo de revirar o estômago. Fora a velha mulher que a ensinou a ser tolerante, paciente e a perdoar. Era na casa dela que Lily encontrava o seu refúgio e a sua paz e foi dela que sentiu mais falta quando foi embora com as Caçadoras.
Uma vez cogitou a hipótese de retornar apenas para verificar se ela estava bem, mas desistiu no meio do caminho. Tinha que aprender a desprender-se de sua vida passada, até porque ela não mais lhe pertencia. Quando encontrou o pequeno Noah no parque e o mesmo lhe dissera que a conhecia, vira a sua foto na casa da avó e que a mesma chorava ao ver o seu retrato, seu coração apertou e a respiração falhou.
- Nem pense nisto. - Zöe havia surgido ao seu lado entre as árvores, olhando na mesma direção que a menina olhava: para o casal que abraçava e beijava o garotinho com tamanha devoção.
- Só queria saber se ela está bem. - falou em um fio de voz. Sua querida avó, o seu bote salva vidas em mar revolto.
- E como achas que ela vai reagir ao ver-te depois de sete anos e você não ter envelhecido um dia? Vai achar que enlouqueceste. - a repreendeu e Laurel suspirou. A tenente tinha razão, sem contar que seria apenas doloroso para ela. Não iria poder se aproximar da avó, dizer que estava bem, acalmá-la, sem assustá-la.
- Vamos embora. - disse e deu meia volta, embrenhando-se floresta adentro e não olhando para trás para ver se Zöe a seguia ou não.
Abriu os olhos em um estalo apenas para ser cumprimentada com a escuridão que preenchia a cabana. O fogo da lareira já havia se extinguido fazia algumas horas e o ambiente a sua volta estava ficando gradualmente mais frio a medida que a madrugada adentrava. Girou sobre o colchão, respirando pesadamente. Já era a segunda vez que tinha um sonho relacionado ao seu passado e instintivamente fechou a mão sobre o cordão que carregava no pescoço.
Sentiu que lágrimas quentes marcavam as suas bochechas e inspirou profundamente para acalmar as batidas de seu coração. Percorreu os orbes ao longo da cabana a procura da figura de Apolo e estranhamente o encontrou recostado em um sofá de couro, com os olhos fechados e expressão relaxada, aparentemente dormindo. Franziu o cenho. Deuses dormiam? Silenciosamente desfez-se das cobertas e ergueu-se da cama, ficando imóvel quando o piso de madeira rangeu sob o seu peso. Apolo resmungou alguma coisa sob a respiração, mas não acordou. Suspirou.
Pé ante pé caminhou na direção do deus, parando a poucos centímetros dele e inclinou-se sobre o olimpiano. Era estranho, daquela maneira, dormindo, ele parecia quase humano, exceto pela beleza anormal e o fato de que ela sabia quem ele era. Notou que tudo o que ele vestia era uma camisa sem manga de malha, com calças jeans e sapatos mocassim e arrepiou-se. Se com as suas roupas de Caçadora já estava sentindo frio, como é que ele não? Mirou a lareira apagada e viu que não havia nenhuma lenha sobressalente perto dela. Franziu os lábios pensativa e depois voltou o olhar para a porta de entrada.
Novamente pé ante pé foi em direção a saída, tomando todo o cuidado possível para evitar que a madeira velha da cabana não rangesse sob os seus pés e levou a mão a maçaneta de bronze desbotada, a girando e abrindo a porta cuidadosamente, sendo prontamente cumprimentada pelo vento frio que veio da floresta e invadiu a cabana.
- Aonde pensa que vai? - pulou de susto ao ouvir a voz masculina atrás de si e olhou por cima do ombro para ver Apolo na mesma posição, mas desta vez os olhos estavam abertos e duas íris azuis como o céu límpido de verão a encaravam intensamente, como se estivessem desvendando a sua alma. Prontamente enrubesceu.
- Eu ia buscar lenha. - justificou-se e os orbes claros do deus voltaram-se para a lareira apagada e depois retornaram para ela, a petrificando no lugar somente com aquela mirada. - O senhor não está sentindo frio? - engoliu em seco quando ele ergueu-se da poltrona em um gesto fluído, digno de um príncipe, coisa que tecnicamente ele era. Afinal, não era filho de Zeus, rei dos deuses?
- Não sinto frio. - declarou seriamente e Laurel sentiu-se a criatura mais estúpida do mundo. Óbvio que ele não sentia frio. Era uma divindade, por que, por Hades, iria se deixar abater por coisas tão banais e dignas apenas de pobres mortais? - Sou o deus-sol, sou quente por natureza. - continuou no mesmo tom, aproximando-se dela e a jovem sentiu o coração dar um pulo quando o olimpiano pegou em sua mão.
Apolo era quente. Não no sentido de flerte ou figurado, mas sim no literal. A pele dele era mais quente do que o normal, como se estivesse com febre mas sem demonstrar fisicamente este fato.
- Volte para cama. - ele espalmou a mão na porta, a fechando com um empurrão e depois estalou os dedos. O fogo voltou a crepitar na lareira antes apagada, iluminando a cabana e aos poucos a reaquecendo. Laurel engoliu em seco, o obedecendo e retornando para a cama, sentando-se na mesma sob o olhar observador do deus.
- O que foi? - perguntou sem graça.
- Você... Me lembra alguém. - respondeu e a jovem piscou intensamente. Apolo sacudiu a cabeça, dando um meio sorriso para ela e fazendo um gesto com a mão dizendo que era para esquecer. - Melhor dormir, amanhã partirmos com o nascer do sol. - e riu da própria piada. Laurel rolou os olhos, voltando a deitar-se na cama e encolhendo-se sob as cobertas, mas não dormindo de pronto, pois a imagem de um par de límpidos olhos azuis não queria lhe sair da cabeça.
- E então? - Apolo abriu os braços largamente, com um enorme sorriso no rosto enquanto Laurel apenas colocava as mãos dentro dos bolsos de sua parca de esqui prateada e arqueava uma sobrancelha escura diante dos gestos dramáticos do deus. Parado atrás do olimpiano estava seu adorado Maserati Spyder conversível, com a capota arriada e a lataria vermelho vivo reluzindo brilhantemente como se estivesse sob o sol intenso. Exceto pelo fato de que aquele era o próprio sol.
- Senhor... Já conheço o seu carro. - o mirou com uma expressão de enfado. Carros caros e conversíveis não a impressionavam muito. A garagem do seu pai vivia cheio deles, e com certeza era por causa deles que o homem conseguia metade das amantes que possuía. O sorriso de Apolo murchou na hora diante do tom monocórdio da Caçadora.
- Vocês Caçadoras da minha irmã são difíceis de agradar. - reclamou, puxando do bolso do jeans as chaves e apertando o botão do alarme, fazendo o carro apitar e as portas do mesmo se abrirem com um leve silvo de ar pressurizado.
- Tentou agradar muitas nos últimos anos? - Laurel deu a volta no carro, alcançando o lado do passageiro e vendo com surpresa que sobre o banco estava a sua mochila e no bolso externo da mesma, presas com uma amarra de couro, estavam as suas sai. Sorriu. Apolo ou a própria Ártemis havia recuperado as suas armas, depois perguntaria a sua senhora para saber a quem agradecer propriamente.
- E correr o risco de levar uma flecha na bunda da minha irmã? - o deus posicionou-se atrás do volante enquanto Lily sentava-se no banco do carona, colocava a mochila no colo e fechava a porta do carro. - Não sou tão estúpido. O cinto por favor. - lhe chamou a atenção e a jovem fez uma expressão desacreditada. Apolo seguindo regras de trânsito para dirigir nos céus era o cúmulo do absurdo. Entretanto, só para não contrariá-lo, afinal ele ainda era um deus, o obedeceu.
Girou a chave na ignição e o motor roncou macio, como o ronronar de um gato, e Apolo soltou um suspiro apreciativo. Laurel rolou os olhos. Homens, deuses ou mortais, todos eram iguais quando se tratava de lataria sobre quatro rodas.
- Talvez devêssemos começar suave, não acha? Pra não causar um choque térmico depois de tanto tempo com chuva. - sorriu para a jovem ao seu lado que apenas bufou.
- O senhor pode fazer como quiser, desde que eu chegue ao meu destino ainda hoje. - retrucou contrariada e o deus-sol gargalhou. Ela realmente o lembrava alguém, mas não conseguia atinar quem.
- Então tá. - pisou no acelerador e Laurel soltou uma exclamação surpresa quando o Maserati disparou em direção as copas das árvores como um jato de fogo e praticamente explodiu acima das nuvens, abrindo caminho entre as mesmas e começando a iluminar com fulgor a terra a quilômetros de distância abaixo deles.
- O senhor precisa ir tão rápido? - grunhiu, sentindo-se levemente enjoada com o balançar do carro. Achava que a famosa carruagem do sol fosse mais suave, como um avião, em seu voo, mas parecia que também sofria dos males da turbulência, ainda mais que estava tentando vencer algumas tempestades que encontrava pelo caminho para assim proporcionar um amanhecer digno para algumas cidades.
- Tecnicamente não. Estamos no outono, o que significa o começo de dias mais curtos como prelúdio do solstício de inverno. - ele virou o rosto para olhá-la. - Tudo bem aí? Você me parece meio verde.
- Cuidado! - gritou quando entraram em uma grossa nuvem de chuva e um raio desceu na direção deles. Apolo girou o volante para a esquerda, desviando da descarga, e gargalhou diante desta pequena aventura.
- Se eu não soubesse, diria que papai está fulo comigo. Mas ultimamente eu ando me comportando muito bem. - Laurel empalideceu. Não queria nem pensar como deveria ser um dia com Apolo conduzindo o carro do sol pelos céus e Zeus tentando acertá-lo com os seus raios. Com certeza deveria ser o inferno.
- Por favor senhor não brinque com isso. Não até estarmos em terra firme. - segurou-se nas beiradas do assento, fechando os olhos firmemente quando viu os raios descerem em grandes clarões ao redor do veículo. - Tem certeza que não andou contrariando o senhor Zeus recentemente? - perguntou quando um raio quase acertou a traseira do carro.
- Tenho. - Apolo respondeu confiante, girando o volante para a direita e saindo da nuvem em disparada, chegando a uma parte do céu onde ele estava mais límpido e aos poucos ia clareando com a aproximação do Maserati. Laurel soltou uma longa exalada de ar de alívio ao ver que tinham escapado do pior e voltou o seu olhar para o chão ao longe, vendo uma cidade passar abaixo deles e depois a estrada que cortava o município sair dos limites do mesmo e fundir-se a uma floresta de árvores centenárias.
- Lá! - apontou quando identificou em uma clareira o teto de várias barracas de tecido prateado que formavam um círculo perfeito em torno de uma fogueira. - O acampamento das Caçadoras.
- Estou vendo. Segure-se querida!
- Querida? - ofegou e arregalou os olhos quando o Maserati deu uma guinada, fez uma curva extremamente fechada em pleno ar e desceu a toda velocidade em direção ao solo. Lily sentiu como se todos os órgãos do seu peito tivessem escorregado para a barriga diante da manobra e cerrou as pálpebras firmemente, rezando para todos os deuses do Olimpo, menos Apolo, para que sobrevivesse a esta viagem.
Sentiu quando as rodas do carro tocaram o solo e este tremeu sobre as molas do amortecedor até parar de vez e o motor ser desligado com um suave sibilo.
- Está entregue! - Apolo falou jovial e Laurel abriu um olho, apenas para testar os seus arredores e ver que o deus tinha aterrissado justamente no meio do acampamento, em cima da fogueira apagada.
- Apolo! - o tom contrariado de Ártemis chegou ao ouvido de ambos e o deus virou-se com um enorme sorriso para cumprimentar a gêmea, saindo do conversível em um pulo, sem se dar ao trabalho de abrir a porta.
- Fiz o que me pediu irmãzinha. Trouxe a sua Caçadora sã e salva para o acampamento.
- Você chama isso de sã e salva? - a deusa da caça apontou um dedo em riste para Lily que saía do carro com o rosto pálido e as pernas trêmulas, sendo prontamente amparada por Thalia.
- Ah, a gente se divertiu, não foi? - o deus voltou-se com um sorriso para a Caçadora que o fuzilou com o olhar. - Mas olha só quem eu vejo! Irmãzinha número dois! E aí? Quando é que você vai me ceder um pouco do seu tempo para outra aula de direção? - Thalia engoliu em seco e deu um sorriso sem graça para Apolo. Não subiria naquele carro nem que Zeus apontasse o raio mestre para a sua testa e a obrigasse.
- Um dia... Quem sabe. - saiu pela tangente, guiando Laurel até a sua barraca.
- Pena. - Apolo retornou para o carro em outro pulo. - Se precisar de mim de novo estou as ordens. - e com um sorriso, um girar de chave, um ronco de motor e uma acelerada, desapareceu da clareira em um estouro de luz.
O vidro quebrou sob o seu pé, gerando um som estalado que fez a jovem morder o lábio inferior para não emitir nenhum ruído expressando o seu desagrado por causa daquele erro. Ao seu lado, Febe lhe lançou um olhar de advertência e arqueou as sobrancelhas douradas diante de sua gafe e pensou em abrir a boca para lhe chamar a atenção mas mudou de ideia, pois seria gerar mais barulho quando o que elas queriam era o silêncio absoluto.
O vento noturno soprou fortemente, fazendo a porta do velho armazém abandonado bater com força e o som de ferro vibrando ecoar por todo o lugar, chamando a atenção das duas Caçadoras. Laurel mirou por cima do ombro e estreitou os olhos, puxando de sua aljava uma flecha prata e a levando ao arco, o armando. A luz prateada da lua entrava pelos vidros foscos e quebrados do velho galpão e iluminavam a poeira que pairava no ar. Febe seguia a frente da garota mais velha mas parou de súbito quando ouviu o barulho de algo se arrastando pelo chão de cimento.
Os olhos claros de Lily encontraram os escuros de Febe e a escocesa fez um sinal com os dedos, indicando que a companheira deveria seguir pela esquerda enquanto ela ia pela direita, pois com isto as chances delas encurralarem a presa seriam maiores. Febe assentiu com a cabeça e armando o seu arco foi pé ante pé por entre as velhas caixas de madeira apodrecidas enquanto Laurel tomava o caminho oposto, com os seus sentidos todo alerta para qualquer eventualidade.
Novamente o ruído de algo se arrastando soou pelo galpão, desta vez bem perto dela, e num gesto brusco Laurel virou-se a tempo de sentir algo batendo violentamente contra o seu quadril, a arremessando contra uma viga de ferro. Gemeu diante do impacto e ergueu os olhos para a criatura na sua frente. Da cintura para cima o que se apresentava era uma bela mulher com pele em tom café e olhos dourados riscados como os de um réptil. Cachos rebeldes e negros adornavam a cabeça e vestia uma camisa rosa choque com os dizeres: "Eu amo São Francisco".
Era da cintura para baixo que estava o problema. Pois onde deveria ter pernas o que havia era uma cauda grossa de serpente que se retorcia e brilhava em tons vermelhos e corais contra os raios lunares.
- Caçadora! - sibilou a lâmia e Laurel levantou-se do chão em um salto, recolhendo o arco e a flecha antes perdidos por causa do ataque súbito e os armando, os disparando contra o monstro prontamente. A cauda de serpente remexeu, desviando o percurso da flecha e essa se enterrou em um caixote de madeira com um sonoro "crac".
- Laurel! - Febe veio correndo em sua direção e deslizou pelo chão até parar ao seu lado, disparando também o seu arco.
- Não! - Lily segurou no ombro da companheira, a empurrando para um lado enquanto se atirava para o outro, pois novamente a lâmia remexera a cauda, rebatendo a flecha que desta vez foi sobre elas e passou zunindo perto da orelha da escocesa. Girou o corpo quando este se chocou com o chão e só parou quando encontrou proteção atrás de uma coluna. Olhou para o lado em que empurrara Febe e viu que ela tinha feito o mesmo movimento tático e agora tinha abandonado o arco e flecha e os trocado por uma faca. Laurel decidiu seguir a decisão da amiga e fez o mesmo, puxando as suas sai de dentro dos canos longos das botas que usava e as girando entre os dedos.
Ambas as Caçadoras trocaram mais um olhar e Febe apontou para si mesma com o dedo indicador e depois para a lâmia que sibilava e contorcia a cauda, farejando o ar a procura de suas presas visto que a pouca luminosidade dentro do armazém não estava favorecendo nenhum dos dois lados. Laurel assentiu com a cabeça e saiu detrás da coluna, usando caixotes como proteção enquanto com um grito de guerra Febe partia com um ataque frontal para cima do monstro.
A lâmia silvou ao ver o vulto da Caçadora vir em sua direção e chicoteou a sua cauda de serpente, acertando Febe no peito. Laurel aproveitou a distração dela e atacou por trás. Quanto sentiu a pontada na base de sua coluna o monstro urrou, olhando por cima do ombro para a adolescente atrás de si e seus olhos dourados faiscaram de ódio diante da ousadia dela. Mais uma vez seu rabo remexeu-se para atacar, mas desta vez Lily estava preparada e quanto a cauda desceu na sua direção ela deu um pulo para trás, deixando a mesma acertar o solo com um som abafado, causando rachaduras no cimento, e antes que ela pudesse preparar-se para outro ataque usou a sai para prender a ponta do rabo de serpente no chão.
Com isto, convocou novamente o seu arco, o armando com duas flechas e o disparando. As mesmas cortaram o ar com precisão, cravando-se no peito da lâmia ao mesmo tempo que as pontas prateadas de outras duas flechas surgiam ao lado das suas. O monstro soltou um longo e agonizante sibilo de dor até desfazer-se em poeira e luz. Laurel suspirou, indo até a sua sai e a desenterrando do chão, a recolocando na bota e aproximando-se de Febe. O som de uma corneta de caça soou por todo o porto e ambas sorriram.
- Parece que a caçada acabou por esta noite. - comentou Febe displicente. A senhora Ártemis havia separado as Caçadoras em grupos por causa da grande aparição de monstros que ocorria na área de São Francisco desde o fim da guerra com Cronos, visto que foi ali que o titã reerguera o seu castelo. O soar da corneta era o aviso de que a batalha fora encerrada por hora.
- Vai na frente, vou pegar a minha flecha. - falou, indicando sobre o ombro a flecha que a lâmia desviara para um caixote. Febe assentiu com a cabeça e girou sobre os pés, sumindo na escuridão do galpão e Laurel deu meia volta, indo até a caixa de madeira e arrancando a sua flecha da mesma.
Palmas soaram por todo o armazém e a jovem prontamente armou o seu arco e rodou os olhos pelo lugar a procura da nova ameaça.
- Foi impressionante. - com um girar de corpo pôs-se na direção em que veio a voz e disparou a flecha, vendo o projétil prateado passar como um rastro de poeira lunar perto de um rosto jovial e inabalado diante do ataque. - Você é do tipo que atira primeiro e pergunta depois?
- Senhor Apolo! - Laurel exclamou aborrecida, guardando o seu arco e depois cruzando os braços sobre o peito. - O que faz aqui? - perguntou com uma expressão desconfiada. Ultimamente Apolo andava fazendo visitas surpresas ao acampamento das Caçadoras com a desculpa de que sentia saudades das suas irmãs favoritas: Thalia e Ártemis. A deusa simplesmente lançava uma olhar incrédulo para o gêmeo, como se perguntasse a ele se cruzara com Dionísio recentemente e Thalia não sabia nem como reagir diante do súbito interesse fraterno do olimpiano.
- Estava dando uma volta por essa área... - a Caçadora soltou um bufo descrente. Estavam no cais do porto, em um armazém desativado e no meio da noite. O que um deus estaria fazendo rondando por ali? - quando ouvi os sons de batalha e então vim dar uma espiadela. - deuses mentiam? Porque se sim, Apolo estava fazendo um trabalho divino, com o perdão do trocadilho.
- Claro. - rolou os olhos, girando sobre os pés e dando as costas ao outro adolescente. As outras Caçadoras e Ártemis deveriam estar esperando por ela e se não aparecesse logo, com certeza mandariam um grupo de busca achando que algo lhe aconteceu.
- Por que a pressa? - pulou de susto pois em um piscar de olhos Apolo estava em uma plataforma elevada conversando com ela e no outro estava na sua frente. Deu um passo para o lado na intenção de contorná-lo, mas o deus acompanhou o seu movimento, continuando a bloquear o caminho. Exalou longamente em sinal de frustração e semi-cerrou os olhos na direção do homem. - Você é diferente das outras Caçadoras. - falou divertido. - Elas parecem ter uma aversão e terror tamanho dos homens, deuses ou mortais. Mas você... Você nem se abala. Curioso.
- Apareceu aqui simplesmente porque acha o fato de eu servir Ártemis e ao mesmo tempo não ser alérgica a homens um caso curioso? - não podia acreditar nisso. Apolo não deveria ser o deus-sol, deveria ser o deus dos doentes mentais, porque com certeza ele não regulava bem.
- É que você me intriga profundamente. - existia sanatório no Olimpo? Pensou Laurel, porque o olimpiano estava urgentemente precisando de um. Desde que se conhecia como gente Lily sempre se considerou a criatura mais simplória do mundo, digna de não despertar o interesse de ninguém, quanto mais de um deus. - Não consigo ver o seu futuro.
- O quê?
- Você mesma disse... Sou o deus das profecias, mas não consigo ver o seu futuro. - os olhos azuis praticamente brilhavam na semi escuridão do galpão e a jovem engoliu em seco. Deveria deixar para lá ou se preocupar com o fato de que, aparentemente, não tinha um futuro? Apolo deu um passo a frente e a garota travou os pés no chão para impedir-se de recuar, não queria causar nenhum desrespeito ao deus. Quando ele estendeu uma mão e tocou com as pontas dos dedos mornos a sua face, sentiu o seu coração falhar várias batidas e os seus olhos ficaram largos.
- O-o-o que o senhor está fazendo? - balbuciou horrorizada. O último homem que a tocou fora Christopher Hail quando a humilhara na frente de toda a escola, antes dela ser resgatada por Zöe e jurar obediência a Ártemis. Quis ardentemente estapear a mão do deus para longe de sua bochecha, mas parecia que todos os nervos de seu corpo não estavam mais obedecendo o seu cérebro.
- E você ainda me é extremamente familiar. - deu mais um passo a frente, invadindo de maneira perigosa o espaço pessoal da Caçadora. - Mas não consigo lembrar de onde. - os olhos azuis estavam próximos demais, notou Lily com pavor, tanto que ela pôde perceber que em torno da íris clara havia um anel dourado como ouro e que seus pensamentos estavam começando a tomar um rumo que não deveriam. Por exemplo: era completamente errado para uma Caçadora de Ártemis considerar o gêmeo de sua senhora a criatura mais bela que já vira na vida.
- Laurel! - o chamado a acordou de seu transe e com um ofego ela recuou aos tropeços, o rosto completamente vermelho e os olhos com as pupilas dilatadas. Por cima do ombro de Apolo pôde ver Thalia surgir na esquina que uma fileira de velhos caixotes formava, seguida de outras Caçadoras e da deusa.
- Irmão... - Ártemis mirou Apolo com os olhos pratas estreitos em desconfiança e depois percorreu o olhar até Lily que respirava pesadamente e ainda tinha as bochechas vermelhas. - Venha Laurel. - estendeu a mão para a garota que prontamente pôs-se a caminhar na direção da ruiva e postou-se atrás dela, a usando como escudo contra o outro deus. - Thalia, leve as Caçadoras de volta ao acampamento. - ordenou e Thalia assentiu com a cabeça, dando meia volta e tomando o caminho de saída do armazém, sendo seguida pelas companheiras e deixando os gêmeos olimpianos sozinhos.
- Irmãzinha... - Apolo começou com o seu usual sorriso maroto.
- Não venha com irmãzinha para cima de mim Apolo. O que você estava fazendo aqui? Sozinho? Com a minha Caçadora?
- Só estava dando uma volta. - deu de ombros e Ártemis o fuzilou com o olhar.
- Pois a partir de agora dê as suas voltas longe das minhas Caçadoras. Melhor... Longe de uma Caçadora em particular. - o alertou, dando meia volta e indo embora do galpão. Apolo ainda ficou alguns minutos na escuridão do armazém depois da partida da irmã, absorvendo as palavras dela. Poderia obedecer a sua gêmea, mas desde quando ele dera ouvidos a ela? Com um sorriso traquinas no rosto desapareceu em um clarão.
oOo
O quarto onde estava lhe era mais do que familiar, era o seu refúgio. Foi o seu refúgio por quatorze anos desde que fora morar naquela casa. As paredes em um tom rosa claro, os quadros com temas infantis, as cômodas brancas, o berço e o armário foram trocados com os anos, mas ela reconheceria em qualquer lugar a enorme porta dupla de vidro que levava para um terraço onde havia um singelo jardim e as cortinas de seda brancas que sempre costumavam balançar com a brisa do verão.
O que ela não reconhecia era a mulher debruçada sobre a grade do berço de bebê e sendo iluminada pelos raios pratas da lua que entravam pelos vidros da janela do quarto. Seus cabelos eram longos, de um tom castanho amarronzado e com largos e generosos cachos que desciam emoldurando a face redonda e iam até o meio das costas. A pele era alva e imaculada e os olhos verdes como folhas de uma floresta. O sorriso que estava no belo rosto era triste e o vestido em tons claros e de tecido leve balançava com a brisa que entrava pela fresta da janela.
- Eu sinto muito minha pobre criança. - as pontas dos dedos longos acariciaram o rosto macio do bebê adormecido dentro do berço. - Queria lhe dar mais do que isto, mas não é seguro ficarmos juntas. Peço todos os dias que os deuses olhem por você. - continuou em um tom baixo, quase um sussurro, e depois se afastou das grades, levando as mãos ao pescoço e soltando algo dele. Quando as ergueu novamente, entre os dedos havia um cordão de ouro com um pingente de esmeralda em forma de folha, o qual a mulher passou em torno da cabeça do bebê.
- Ártemis olhará por você. Ela é a deusa da caça, das florestas, da natureza, é a nossa protetora e estará sempre ao seu lado, porque eu não poderei mais. - disse com pesar, inclinando-se sobre o berço e depositando um suave beijo na testa da criança adormecida que remexeu-se mas não despertou de seu sono profundo. A mulher retornou a sua posição, lançando um último olhar triste para o berço e seguiu em direção as portas duplas, as abrindo levemente e desaparecendo em um sopro de vento.
Laurel sentou-se abruptamente com a respiração ofegante e o coração descompassado diante do sonho que teve. Ou fora uma lembrança? Não saberia dizer. Percorreu os olhos a sua volta para as suas companheiras de barraca e notou que estas ainda estavam adormecidas. Silenciosamente saiu de seu saco de dormir, calçando as suas botas e abandonando a barraca sem fazer barulho algum. Uma brasa ainda queimava na fogueira montada ao centro do círculo do acampamento e lobos das montanhas faziam vigília ao redor das barracas. Corujas estavam empoleiradas no topo dos galhos grasnando e observando qualquer movimento enquanto grilos cantavam ao longe.
Mirou o céu por entre as copas das árvores e viu que faltavam poucas horas para a alvorada. Estremeceu. Pensar no amanhecer a fazia se lembrar de Apolo. E lembrar de Apolo a remetia a noite em que encontrara o deus no armazém do cais do porto de São Francisco. Sacudiu a cabeça para desfazer esta lembrança e soltou um longo suspiro.
- Sem sono? - virou-se para se deparar com a própria Ártemis saindo de sua barraca.
- Minha senhora. - fez um cumprimento polido com a cabeça. - Eu... Iria mesmo falar com a senhora.
- Sobre?
- Tive um sonho agora há pouco. - e começou a relatar para a olimpiana sobre o sonho que tivera e que a fizera acordar tão cedo. Ártemis a ouviu com atenção e franziu as sobrancelhas ao final do relato. - A senhora sabe de alguma coisa?
- Venha comigo Laurel. - pediu, dando meia volta e encaminhando-se para a sua barraca. A Caçadora a seguiu, adentrando a barraca da deusa e acomodando-se em uma das almofadas que ficava a um nível abaixo do pequeno trono que fazia parte da decoração do local e onde a divindade havia se acomodado. - Talvez seja a hora de você saber um pouco sobre o seu passado.
- Senhora? - perguntou confusa. O que havia de mais em seu passado? Era filha bastarda de um Lorde bretão e de mãe desconhecida. Ou quase desconhecida. Se o sonho que teve fosse alguma indicação, aquela mulher debruçada sobre o berço deveria ser a sua mãe, o bebê era ela, o presente, o cordão que usava, fora presente de sua mãe e a mesma, aparentemente, era uma seguidora de Ártemis.
- Um talento como o seu desperdiçado nas mãos de mortais. - Ártemis fez um "tsc" entre os lábios e sacudiu a cabeça em negativa. - Foi por isso que pedi a Zöe que ficasse de olho em você... Eu estou de olho em você desde que a sua mãe me pediu em suas orações que cuidasse de você.
- Conheceu a minha mãe?
- Faz parte da minha corte... A sua mãe. - o queixo de Laurel caiu.
- Como?
- Pense minha cara Caçadora. Apenas pense. - a jovem mordeu o lábio inferior. Ártemis tinha como corte os animais, a natureza... As ninfas. A mulher do seu sonho era bela como uma fada... Como uma ninfa.
- Minha mãe... Era uma ninfa. - atestou surpresa.
- A sua passividade, sua incapacidade de odiar, sua grande capacidade de amar, de perdoar, sua ligação com a natureza, tudo é herança de sua mãe. Se a deixasse viver entre os mortais eles destruiriam essas qualidades mais cedo ou mais tarde e eu não poderia permitir isso. - fazia sentido, muito sentido. Por que ela sempre pedia desculpa as suas caças antes de matá-las. Como ela sabia para que lado ir quando estavam no encalço de um monstro, pois sempre parecia que havia alguém lhe sussurrando o caminho no ouvido. Era a própria natureza lhe ajudando na caçada. Sua rápida adaptação como Caçadora, o fato de se sentir livre quando estava no meio de uma floresta em vez da cidade grande.
- Qual tipo de ninfa a minha mãe era? - perguntou curiosa e nisto Ártemis fez uma expressão que misturava dor e desagrado, uma que a jovem não compreendeu. - Senhora? - a deusa suspirou.
- A sua mãe... Ela era uma Daphne.
- Desculpe! - veio o pedido logo assim que o ombro encontrou-se com o seu braço, mas ela pouco se importou, apenas quis seguir o seu caminho e isto faria se uma mão não tivesse segurado bruscamente o seu pulso e a feito parar no lugar. - Espera! - os olhos verde oliva estreitaram ao mirarem a mulher de cima a baixo, a avaliando com desconfiança. Sua primeira reação seria a de sacar uma de suas sai para se defender, mas estavam em uma rua movimentada e não queria chamar a atenção de ninguém.
- Posso ajudá-la? - resolveu seguir a tática comum de fazer-se de desentendida.
- Lily Graham... É você? - a estranha balbuciou com os olhos escuros largos de choque e a jovem franziu as sobrancelhas, recuando um passo e tentando soltar-se do aperto que eram os dedos dela em seu pulso. - Não - a mulher riu de maneira nervosa. - se passaram dez anos, você deveria estar com vinte e quatro. Me desculpe. - pediu, finalmente a soltando e a menina recuou aos tropeços.
- Está tudo bem. - falou, esfregando o pulso dolorido e mirando a desconhecida atentamente. Ela lhe era familiar, mas onde a tinha visto antes? Sem contar que a mulher a reconhecera, ou ao menos pensou que a reconhecera.
- Eu... É que... - passou os dedos trêmulos por entre os cachos loiros e soltou um longo suspiro. - Lily é o meu fantasma, sabe. - começou a dizer para o completo estranhamento da adolescente.
- Er... Senhora... - Laurel balbuciou, querendo cortar qualquer conversa que a mulher estivesse disposta a engajar. Primeiro que não estava ali para bater papo, segundo que nem a conhecia. Ou talvez a conhecia, mas não se lembrava dela.
- Pâmela Johnson. - apresentou-se e a morena se segurou para não dar um ofego. Pam Johnson: o seu pesadelo de infância. Se fechasse os olhos ainda podia se lembrar da cena da bela loira abraçada a Chris Hail e caçoando dela, junto com os outros colegas de turma, depois de pregarem uma brincadeira de mau gosto sobre a sua pessoa. - Se não fosse tão pouco tempo eu diria que você poderia ser a filha da Lily... Mas creio que isso é impossível. - sacudiu a cabeça com pesar.
- A senhora e essa Lily... Eram amigas? - perguntou hesitante, curiosa em saber a resposta da mulher. Já que ela a tinha parado, puxado conversa e começado a desabafar seus pecados, não custava nada tentar descobrir um pouco o que acontecera depois de sua partida. Sempre teve curiosidade para saber como ficaram todos depois que largara a sua vida para trás para tornar-se uma Caçadora, mas nunca tivera coragem de voltar a Escócia e investigar. Fora a única vez em que trombara sem querer com o seu meio-irmão em um Parque Nacional nos EUA, depois deste dia, nunca mais.
- Não. Ela foi uma menina... Uma menina... Que tinha potencial.
- Tinha? O que aconteceu com ela? - Pam deu de ombros.
- Várias são as teorias, nenhuma são as respostas. A teoria da polícia é que ela fugiu de casa, outra foi sequestro. Os boatos na nossa antiga escola eram a de que ela se matou... - um tremor passou pelo corpo de Pâmela ao dizer isso. Se matar? Laurel quase riu. Está certo que ela foi judiada e humilhada pelos colegas, mas nunca passou pela sua cabeça se matar. A senhora Ártemis lhe dissera que era essa determinação de aguentar tudo sem protestar que chamou a atenção da deusa para ela e a fez ser escolhida para ser Caçadora.
- Parece que a senhora se culpa, caso ela tenha realmente se matado. - Lily atestou e Pam fez uma expressão sofrida que foi resposta o suficiente para a jovem. - E o fato de eu ser parecida com ela a fez pensar que poderia se redimir dos seus pecados. - continuou e a mulher sentiu como se tivesse levado uma facada no coração. - Sinto muito se não posso ajudá-la.
- Eu sei. - suspirou e Laurel deu as costas para seguir o seu caminho, mas parou abruptamente e virou-se para encarar a ex-colega de escola.
- Só por curiosidade... Se você a reencontrasse, o que exatamente diria a ela?
- Perdão. - foi a única coisa que Pâmela respondeu e Lily assentiu com a cabeça. - Acha que ela me perdoaria? - perguntou quando viu a menina afastar-se.
- Por que não. - Lily deu de ombros e sorriu para a mulher que sorriu de volta e retornou a andar, encontrando Thalia no meio do percurso.
- Quem era aquela? - perguntou a semi-deusa, olhando por cima do ombro da jovem a loira a distância que tinha um sorriso no rosto e lágrimas escorrendo dos olhos escuros.
- Ninguém... Ninguém.
EUA - presente
- Por que não? - Laurel cruzou os braços sobre o peito em um gesto desafiador e fuzilou o caçador com o olhar, franzindo as sobrancelhas negras e mordendo o lábio inferior em uma clara expressão de desagrado. - A chuva melhorou! - acusou, apontando janela afora para a floresta coberta por uma densa neblina por causa da queda de temperatura mas que não era mais escondida pelos grossos pingos de chuva.
- E o solo está escorregadio, há queda de barreiras e o rio subiu o nível, o que torna arriscado atravessar alguns trechos com ponte para te levar a cidade mais próxima. - Fred suspirou exasperado e esfregou os olhos com as pontas dos dedos. Se fosse capaz de ter dor de cabeça, com certeza uma estaria brotando agora mesmo em suas têmporas. Desde que acordou que Lily estava resmungando que queria ir embora, havia mais do que depressa trocado a camisa de flanela que vestia pelas suas roupas de Caçadora e exigido que fosse levada para a cidade mais próxima visto que a chuva tinha estiado. E desde esta hora que o homem estava tentando explicar para a garota teimosa o quanto isto era inviável.
- Se não vai me levar de carro... - levantou-se da cama onde estava sentada em um pulo. - eu vou a pé! - falou decidida, indo mancando na direção da porta e o homem considerou uma boa opção bater com a testa contra a parede de madeira da cabana só para saber que som o gesto iria fazer. Lembrava vagamente de Laurel das poucas vezes que encontrara-se com a sua irmã e suas Caçadoras e não trocara nem duas palavras com ela, mas jurava que a distância ela era uma candura de menina.
- Laurel Graham! - a voz ecoou pelo diminuto espaço que consistia aquela cabana e a jovem estacou no lugar com os olhos largos e a respiração entalada na garganta. Trêmula, virou-se sobre os pés com medo do que acharia atrás de si e ofegou ao ver que agora quem se encontrava na sua frente não era mais o sisudo caçador Fred, mas sim um jovem de dezoito anos, cabelos claros, porte atlético, pele dourada de sol e expressão fechada.
- Senhor Apolo! - falou horrorizada, caindo de joelhos no chão em uma reverência e ignorando a fisgada que o seu tornozelo ferido deu por causa de tal gesto.
- Oras, levante-se! - Apolo ordenou, rolando os olhos e Laurel não mexeu um músculo. - Levante-se! - disse em um tom mais imperioso e a garota finalmente se mexeu.
- Mil perdões senhor Apolo eu não sabia... - calou-se, franzindo o cenho. - Por que, pelos deuses, o senhor está aqui? - toda a postura subserviente da garota desapareceu e ela cruzou novamente os braços sobre o peito em um gesto desafiador e Apolo deu um sorriso sem graça diante da estupidez de ter revelado a sua identidade somente por ter perdido a paciência. Bem que Ártemis dissera que ele era péssimo para guardar segredos e pavio curto demais. Mas a culpa era dela que o encarregara deste trabalho em primeiro lugar.
- Irmãzinha Ártemis pediu para ficar de olho em você. - explicou-se e Laurel torceu os lábios. A deusa, então, sabia onde ela estava e o que tinha lhe acontecido. Então por que não a levara de volta ao acampamento das Caçadoras como era o de praxe? Por que a isolara em uma cabana no meio da floresta com o deus-sol como o seu guardião?
- Pelos deuses... - ofegou, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos e caminhou até a cama, largando-se sobre o colchão mole como um peso morto.
- Ei... - Apolo surpreendeu-se diante da mudança repentina de humor da garota. - O que há de errado?
- Eu desonrei a minha senhora. - choramingou, fungando longamente e escondendo o rosto entre as mãos.
- O quê? - desesperou-se o deus.
- É a única explicação para ela ter me largado aqui com você. - disse em um tom sofrido, com os ombros tremendo por causa do choro.
- Oi! Minha companhia não é tão ruim assim. - Apolo reclamou. - E você não fez nada que contrariou Ártemis, posso garantir. Na verdade, pelo contrário, ela está bem orgulhosa. Você derrotou a Quimera.
- Então por que...
- Eu não sei... Ela não me disse.
- O senhor não sabe? - Laurel ergueu a cabeça de entre as mãos e o mirou com desconfiança. - O senhor é o deus das profecias.
- Quer parar de jogar isto na minha cara? Eu sei...
- Então por que...
- Eu não sei!
- Que ajuda. - suspirou e rolou os olhos, enxugando com as costas das mãos as lágrimas do rosto e mirando o deus intensamente, torcendo os lábios em desagrado. Não queria contestar as decisões de sua senhora, mas até onde sabia Ártemis jamais foi de confiar qualquer uma de suas Caçadoras a outro deus, menos ainda se esse deus fosse o próprio irmão. Será que estava sendo punida por alguma coisa que fizera e da qual não se lembrava? Será que bateu com a cabeça durante a queda?
- Você não tem amnésia, se é isso que a preocupa. E não creio que a minha irmãzinha a esteja punindo.
- Como o senhor... - calou-se. Que pergunta estúpida. Ele era um olimpiano, óbvio que saberia o que ela estava pensando.
- Mas ela me deu ordens de mantê-la aqui até retornar. - completou e segurou um sorriso quando viu os olhos verdes estreitarem em desagrado. Laurel soltou mais um bufo e cruzou os braços sobre o peito, virando o rosto para mirar janela afora. A chuva que antes cessara retornara como uma garoa fina que fazia o frio na floresta crescer e a umidade aumentar a névoa, a tornando tão densa que dificultava ver as árvores. Com a expressão ainda fechada ela voltou a atenção para o deus sentado, quieto, na sua frente.
- O senhor não deveria estar guiando o carro do sol há essa hora? - Apolo deu como resposta a pergunta da garota um sorriso tão largo que fez a menina ruborizar ao ver os dentes brancos e perfeitos sendo exibidos como em um comercial de pasta de dente.
- O carro do sol está cumprindo o seu trabalho perfeitamente bem no piloto automático, não precisa de mim o supervisionando. Sabe como é enjoativo ver a mesma paisagem todos os dias, por milhares e milhares de anos? Zeus abençoe a tecnologia moderna. - um trovão estourou ao longe e o deus riu. - E já vai anoitecer. E você sabe que a noite não é mais minha jurisdição. - deu uma piscadela para ela e a jovem ficou ainda mais vermelha diante do tom de flerte do deus adolescente.
- Irmão, o que eu já lhe falei sobre flertar com as minhas Caçadoras? - a voz contrariada e em tom de repreensão soou perto da porta e Laurel ergueu-se da cama em um pulo, pondo-se de joelhos no chão em um gesto respeitoso e com o coração aos galopes no peito.
- Senhora Ártemis. - falou em um fio de voz enquanto a menina aproximava-se da outra adolescente e depositava a mão sobre os fios castanho escuro dos cabelos dela.
- Levante-se Laurel. - ordenou com suavidade e a Caçadora levantou-se com os olhos marejados mirando a deusa.
- Minha senhora, perdoe qualquer que tenha sido a minha indiscrição...
- Por que acha que me desagradou Laurel? - Ártemis franziu as sobrancelhas ruivas.
- Porque... - a escocesa lançou um olhar para Apolo que parecia divertir-se com a cena do encontro das duas. - a senhora me deixou aqui sob a guarda do senhor Apolo, então eu pensei...
- Que eu a estivesse castigando por algo? - Ártemis riu. - Oras irmão... Sua fama anda ruim, para a minha Caçadora achar que estar na sua presença seja um castigo divino. - Apolo soltou uma risada forçada, indicando claramente que não achara graça da piada. - Não foi por isso que pedi que ele cuidasse de você, minha cara.
- Não? - Laurel sentiu o coração desacelerar. Se não tinha desagradado a sua senhora, então o que fazia ali com o deus em vez de estar junto com as suas irmãs no acampamento das Caçadoras?
- Thalia relatou que você e ela foram atacadas durante a caça ao cervo - Lily assentiu com a cabeça, suspirando aliviada ao saber que Thalia estava bem. - e aparentemente vocês não foram as únicas. Vários ataques de monstros foragidos desde a guerra contra Cronos ocorreram no mesmo momento que o de vocês. Senti quando você foi ferida, mas não haveria como nos locomover no estado em que você estava e muito menos poderíamos ficar paradas esperando por sua recuperação, por isso pedi a meu irmão que cuidasse de você. - explicou-se para tirar qualquer dúvida e temor da mente da jovem.
- Senhora... - Laurel deu um passo a frente para sussurrar no ouvido da deusa. - por que logo ele? - e lançou um olhar de esguelha para Apolo que mirava o teto da cabana como se esse tivesse algo muito interessante para se observar, fingindo não prestar atenção na conversa delas. Ártemis suspirou e rolou os olhos.
- Bem, meu irmão pode ser um idiota irresponsável...
- Ei! - o deus protestou diante da ofensa.
- Mas ele ainda, entre tantos atributos, tem em seu currículo a qualidade de deus da cura. - Lily assentiu com a cabeça. Havia se esquecido deste detalhe. Apolo nos tempos antigos não era apenas o deus-sol, também era venerado por suas outras habilidades, como as profecias, a inspiração e a cura.
- E agora minha senhora?
- Agora você ficará aqui mais esta noite. - Laurel sentiu o coração despencar até o estômago ao ouvir esta ordem. Como assim teria que ficar mais uma noite na presença de Apolo? - Você ainda não está cem por cento. Amanhã quando amanhecer meu irmão a levará para o acampamento das Caçadoras.
- Mas senhora... - tentou protestar mas um olhar dos orbes prateados de Ártemis foi o suficiente para fazê-la se calar. - Sim senhora. - a deusa assentiu com a cabeça e Laurel rapidamente fechou os olhos quando ela brilhou e desapareceu.
- Então! - Apolo bateu palmas, chamando a atenção da garota para ele. - Mais uma noite somente você e eu... - e parou com um gesto dramático, estendendo a mão com a palma erguida como se pedindo silêncio. - Estou sentindo a vinda de um haicai. - Laurel gemeu. Será que era muito tarde para se jogar naquele rio de novo e deixar a correnteza levá-la?
Ela era o erro. Sabia disso, via esta acusação cada vez que mirava os olhos escuros de sua madrasta. Era o erro que existia para humilhar diariamente a mulher de maneira vergonhosa. Durante os jantares sociais, as festas familiares, os encontros de negócio, os chás de senhoras. Era só aparecer no mesmo ambiente que logo os olhares caíam sobre a sua figura e os cochichos começavam. E eram sempre os mesmos.
- Lily Graham... - alguém dizia.
- Não se parece em nada com o pai. - outra pessoa completava maldosamente. - Eles têm certeza que é uma Graham?
- Fizeram testes de DNA, foram positivos. - um terceiro entrava na conversa. - Além do mais, com todas as indiscrições do Lorde Graham, não me surpreendo disto ter acontecido. Mais cedo ou mais tarde uma criança iria aparecer. - e risadas de deboche vinham logo após este comentário.
- Meredith deve estar possessa. Todos esses anos tentando dar um herdeiro para os Graham e uma qualquer de fora conseguiu o que ela não foi capaz. - mais risadas.
E essa era a sua história. Sua existência consistia do resultado de um dos vários casos extraconjugais de seu pai que acabou com um bebê recém nascido nos degraus da porta da frente da Mansão Graham, bem protegido em um cesto feito de parreiras e vime e envolto em lençol de seda. Testes foram feitos para confirmar a paternidade da menina, investigações foram feitas a procura da mãe da criança e no fim veio a aceitação de que aquele escândalo e responsabilidade seria a ferida da família Graham pelo resto da vida.
Com isto Lily cresceu sendo o espinho que incomodava diariamente Meredith e Noah, casal que fazia questão de fingir que ela não existia naquela casa. Não existia na mesa do café manhã, do almoço, do jantar. Se teve uma boa educação, vestimentas e algum carinho na vida, estes vieram da sua avó Laura que considerava a arrogância do filho e da nora algo de revirar o estômago. Fora a velha mulher que a ensinou a ser tolerante, paciente e a perdoar. Era na casa dela que Lily encontrava o seu refúgio e a sua paz e foi dela que sentiu mais falta quando foi embora com as Caçadoras.
Uma vez cogitou a hipótese de retornar apenas para verificar se ela estava bem, mas desistiu no meio do caminho. Tinha que aprender a desprender-se de sua vida passada, até porque ela não mais lhe pertencia. Quando encontrou o pequeno Noah no parque e o mesmo lhe dissera que a conhecia, vira a sua foto na casa da avó e que a mesma chorava ao ver o seu retrato, seu coração apertou e a respiração falhou.
- Nem pense nisto. - Zöe havia surgido ao seu lado entre as árvores, olhando na mesma direção que a menina olhava: para o casal que abraçava e beijava o garotinho com tamanha devoção.
- Só queria saber se ela está bem. - falou em um fio de voz. Sua querida avó, o seu bote salva vidas em mar revolto.
- E como achas que ela vai reagir ao ver-te depois de sete anos e você não ter envelhecido um dia? Vai achar que enlouqueceste. - a repreendeu e Laurel suspirou. A tenente tinha razão, sem contar que seria apenas doloroso para ela. Não iria poder se aproximar da avó, dizer que estava bem, acalmá-la, sem assustá-la.
- Vamos embora. - disse e deu meia volta, embrenhando-se floresta adentro e não olhando para trás para ver se Zöe a seguia ou não.
Abriu os olhos em um estalo apenas para ser cumprimentada com a escuridão que preenchia a cabana. O fogo da lareira já havia se extinguido fazia algumas horas e o ambiente a sua volta estava ficando gradualmente mais frio a medida que a madrugada adentrava. Girou sobre o colchão, respirando pesadamente. Já era a segunda vez que tinha um sonho relacionado ao seu passado e instintivamente fechou a mão sobre o cordão que carregava no pescoço.
Sentiu que lágrimas quentes marcavam as suas bochechas e inspirou profundamente para acalmar as batidas de seu coração. Percorreu os orbes ao longo da cabana a procura da figura de Apolo e estranhamente o encontrou recostado em um sofá de couro, com os olhos fechados e expressão relaxada, aparentemente dormindo. Franziu o cenho. Deuses dormiam? Silenciosamente desfez-se das cobertas e ergueu-se da cama, ficando imóvel quando o piso de madeira rangeu sob o seu peso. Apolo resmungou alguma coisa sob a respiração, mas não acordou. Suspirou.
Pé ante pé caminhou na direção do deus, parando a poucos centímetros dele e inclinou-se sobre o olimpiano. Era estranho, daquela maneira, dormindo, ele parecia quase humano, exceto pela beleza anormal e o fato de que ela sabia quem ele era. Notou que tudo o que ele vestia era uma camisa sem manga de malha, com calças jeans e sapatos mocassim e arrepiou-se. Se com as suas roupas de Caçadora já estava sentindo frio, como é que ele não? Mirou a lareira apagada e viu que não havia nenhuma lenha sobressalente perto dela. Franziu os lábios pensativa e depois voltou o olhar para a porta de entrada.
Novamente pé ante pé foi em direção a saída, tomando todo o cuidado possível para evitar que a madeira velha da cabana não rangesse sob os seus pés e levou a mão a maçaneta de bronze desbotada, a girando e abrindo a porta cuidadosamente, sendo prontamente cumprimentada pelo vento frio que veio da floresta e invadiu a cabana.
- Aonde pensa que vai? - pulou de susto ao ouvir a voz masculina atrás de si e olhou por cima do ombro para ver Apolo na mesma posição, mas desta vez os olhos estavam abertos e duas íris azuis como o céu límpido de verão a encaravam intensamente, como se estivessem desvendando a sua alma. Prontamente enrubesceu.
- Eu ia buscar lenha. - justificou-se e os orbes claros do deus voltaram-se para a lareira apagada e depois retornaram para ela, a petrificando no lugar somente com aquela mirada. - O senhor não está sentindo frio? - engoliu em seco quando ele ergueu-se da poltrona em um gesto fluído, digno de um príncipe, coisa que tecnicamente ele era. Afinal, não era filho de Zeus, rei dos deuses?
- Não sinto frio. - declarou seriamente e Laurel sentiu-se a criatura mais estúpida do mundo. Óbvio que ele não sentia frio. Era uma divindade, por que, por Hades, iria se deixar abater por coisas tão banais e dignas apenas de pobres mortais? - Sou o deus-sol, sou quente por natureza. - continuou no mesmo tom, aproximando-se dela e a jovem sentiu o coração dar um pulo quando o olimpiano pegou em sua mão.
Apolo era quente. Não no sentido de flerte ou figurado, mas sim no literal. A pele dele era mais quente do que o normal, como se estivesse com febre mas sem demonstrar fisicamente este fato.
- Volte para cama. - ele espalmou a mão na porta, a fechando com um empurrão e depois estalou os dedos. O fogo voltou a crepitar na lareira antes apagada, iluminando a cabana e aos poucos a reaquecendo. Laurel engoliu em seco, o obedecendo e retornando para a cama, sentando-se na mesma sob o olhar observador do deus.
- O que foi? - perguntou sem graça.
- Você... Me lembra alguém. - respondeu e a jovem piscou intensamente. Apolo sacudiu a cabeça, dando um meio sorriso para ela e fazendo um gesto com a mão dizendo que era para esquecer. - Melhor dormir, amanhã partirmos com o nascer do sol. - e riu da própria piada. Laurel rolou os olhos, voltando a deitar-se na cama e encolhendo-se sob as cobertas, mas não dormindo de pronto, pois a imagem de um par de límpidos olhos azuis não queria lhe sair da cabeça.
oOo
- E então? - Apolo abriu os braços largamente, com um enorme sorriso no rosto enquanto Laurel apenas colocava as mãos dentro dos bolsos de sua parca de esqui prateada e arqueava uma sobrancelha escura diante dos gestos dramáticos do deus. Parado atrás do olimpiano estava seu adorado Maserati Spyder conversível, com a capota arriada e a lataria vermelho vivo reluzindo brilhantemente como se estivesse sob o sol intenso. Exceto pelo fato de que aquele era o próprio sol.
- Senhor... Já conheço o seu carro. - o mirou com uma expressão de enfado. Carros caros e conversíveis não a impressionavam muito. A garagem do seu pai vivia cheio deles, e com certeza era por causa deles que o homem conseguia metade das amantes que possuía. O sorriso de Apolo murchou na hora diante do tom monocórdio da Caçadora.
- Vocês Caçadoras da minha irmã são difíceis de agradar. - reclamou, puxando do bolso do jeans as chaves e apertando o botão do alarme, fazendo o carro apitar e as portas do mesmo se abrirem com um leve silvo de ar pressurizado.
- Tentou agradar muitas nos últimos anos? - Laurel deu a volta no carro, alcançando o lado do passageiro e vendo com surpresa que sobre o banco estava a sua mochila e no bolso externo da mesma, presas com uma amarra de couro, estavam as suas sai. Sorriu. Apolo ou a própria Ártemis havia recuperado as suas armas, depois perguntaria a sua senhora para saber a quem agradecer propriamente.
- E correr o risco de levar uma flecha na bunda da minha irmã? - o deus posicionou-se atrás do volante enquanto Lily sentava-se no banco do carona, colocava a mochila no colo e fechava a porta do carro. - Não sou tão estúpido. O cinto por favor. - lhe chamou a atenção e a jovem fez uma expressão desacreditada. Apolo seguindo regras de trânsito para dirigir nos céus era o cúmulo do absurdo. Entretanto, só para não contrariá-lo, afinal ele ainda era um deus, o obedeceu.
Girou a chave na ignição e o motor roncou macio, como o ronronar de um gato, e Apolo soltou um suspiro apreciativo. Laurel rolou os olhos. Homens, deuses ou mortais, todos eram iguais quando se tratava de lataria sobre quatro rodas.
- Talvez devêssemos começar suave, não acha? Pra não causar um choque térmico depois de tanto tempo com chuva. - sorriu para a jovem ao seu lado que apenas bufou.
- O senhor pode fazer como quiser, desde que eu chegue ao meu destino ainda hoje. - retrucou contrariada e o deus-sol gargalhou. Ela realmente o lembrava alguém, mas não conseguia atinar quem.
- Então tá. - pisou no acelerador e Laurel soltou uma exclamação surpresa quando o Maserati disparou em direção as copas das árvores como um jato de fogo e praticamente explodiu acima das nuvens, abrindo caminho entre as mesmas e começando a iluminar com fulgor a terra a quilômetros de distância abaixo deles.
- O senhor precisa ir tão rápido? - grunhiu, sentindo-se levemente enjoada com o balançar do carro. Achava que a famosa carruagem do sol fosse mais suave, como um avião, em seu voo, mas parecia que também sofria dos males da turbulência, ainda mais que estava tentando vencer algumas tempestades que encontrava pelo caminho para assim proporcionar um amanhecer digno para algumas cidades.
- Tecnicamente não. Estamos no outono, o que significa o começo de dias mais curtos como prelúdio do solstício de inverno. - ele virou o rosto para olhá-la. - Tudo bem aí? Você me parece meio verde.
- Cuidado! - gritou quando entraram em uma grossa nuvem de chuva e um raio desceu na direção deles. Apolo girou o volante para a esquerda, desviando da descarga, e gargalhou diante desta pequena aventura.
- Se eu não soubesse, diria que papai está fulo comigo. Mas ultimamente eu ando me comportando muito bem. - Laurel empalideceu. Não queria nem pensar como deveria ser um dia com Apolo conduzindo o carro do sol pelos céus e Zeus tentando acertá-lo com os seus raios. Com certeza deveria ser o inferno.
- Por favor senhor não brinque com isso. Não até estarmos em terra firme. - segurou-se nas beiradas do assento, fechando os olhos firmemente quando viu os raios descerem em grandes clarões ao redor do veículo. - Tem certeza que não andou contrariando o senhor Zeus recentemente? - perguntou quando um raio quase acertou a traseira do carro.
- Tenho. - Apolo respondeu confiante, girando o volante para a direita e saindo da nuvem em disparada, chegando a uma parte do céu onde ele estava mais límpido e aos poucos ia clareando com a aproximação do Maserati. Laurel soltou uma longa exalada de ar de alívio ao ver que tinham escapado do pior e voltou o seu olhar para o chão ao longe, vendo uma cidade passar abaixo deles e depois a estrada que cortava o município sair dos limites do mesmo e fundir-se a uma floresta de árvores centenárias.
- Lá! - apontou quando identificou em uma clareira o teto de várias barracas de tecido prateado que formavam um círculo perfeito em torno de uma fogueira. - O acampamento das Caçadoras.
- Estou vendo. Segure-se querida!
- Querida? - ofegou e arregalou os olhos quando o Maserati deu uma guinada, fez uma curva extremamente fechada em pleno ar e desceu a toda velocidade em direção ao solo. Lily sentiu como se todos os órgãos do seu peito tivessem escorregado para a barriga diante da manobra e cerrou as pálpebras firmemente, rezando para todos os deuses do Olimpo, menos Apolo, para que sobrevivesse a esta viagem.
Sentiu quando as rodas do carro tocaram o solo e este tremeu sobre as molas do amortecedor até parar de vez e o motor ser desligado com um suave sibilo.
- Está entregue! - Apolo falou jovial e Laurel abriu um olho, apenas para testar os seus arredores e ver que o deus tinha aterrissado justamente no meio do acampamento, em cima da fogueira apagada.
- Apolo! - o tom contrariado de Ártemis chegou ao ouvido de ambos e o deus virou-se com um enorme sorriso para cumprimentar a gêmea, saindo do conversível em um pulo, sem se dar ao trabalho de abrir a porta.
- Fiz o que me pediu irmãzinha. Trouxe a sua Caçadora sã e salva para o acampamento.
- Você chama isso de sã e salva? - a deusa da caça apontou um dedo em riste para Lily que saía do carro com o rosto pálido e as pernas trêmulas, sendo prontamente amparada por Thalia.
- Ah, a gente se divertiu, não foi? - o deus voltou-se com um sorriso para a Caçadora que o fuzilou com o olhar. - Mas olha só quem eu vejo! Irmãzinha número dois! E aí? Quando é que você vai me ceder um pouco do seu tempo para outra aula de direção? - Thalia engoliu em seco e deu um sorriso sem graça para Apolo. Não subiria naquele carro nem que Zeus apontasse o raio mestre para a sua testa e a obrigasse.
- Um dia... Quem sabe. - saiu pela tangente, guiando Laurel até a sua barraca.
- Pena. - Apolo retornou para o carro em outro pulo. - Se precisar de mim de novo estou as ordens. - e com um sorriso, um girar de chave, um ronco de motor e uma acelerada, desapareceu da clareira em um estouro de luz.
O vidro quebrou sob o seu pé, gerando um som estalado que fez a jovem morder o lábio inferior para não emitir nenhum ruído expressando o seu desagrado por causa daquele erro. Ao seu lado, Febe lhe lançou um olhar de advertência e arqueou as sobrancelhas douradas diante de sua gafe e pensou em abrir a boca para lhe chamar a atenção mas mudou de ideia, pois seria gerar mais barulho quando o que elas queriam era o silêncio absoluto.
O vento noturno soprou fortemente, fazendo a porta do velho armazém abandonado bater com força e o som de ferro vibrando ecoar por todo o lugar, chamando a atenção das duas Caçadoras. Laurel mirou por cima do ombro e estreitou os olhos, puxando de sua aljava uma flecha prata e a levando ao arco, o armando. A luz prateada da lua entrava pelos vidros foscos e quebrados do velho galpão e iluminavam a poeira que pairava no ar. Febe seguia a frente da garota mais velha mas parou de súbito quando ouviu o barulho de algo se arrastando pelo chão de cimento.
Os olhos claros de Lily encontraram os escuros de Febe e a escocesa fez um sinal com os dedos, indicando que a companheira deveria seguir pela esquerda enquanto ela ia pela direita, pois com isto as chances delas encurralarem a presa seriam maiores. Febe assentiu com a cabeça e armando o seu arco foi pé ante pé por entre as velhas caixas de madeira apodrecidas enquanto Laurel tomava o caminho oposto, com os seus sentidos todo alerta para qualquer eventualidade.
Novamente o ruído de algo se arrastando soou pelo galpão, desta vez bem perto dela, e num gesto brusco Laurel virou-se a tempo de sentir algo batendo violentamente contra o seu quadril, a arremessando contra uma viga de ferro. Gemeu diante do impacto e ergueu os olhos para a criatura na sua frente. Da cintura para cima o que se apresentava era uma bela mulher com pele em tom café e olhos dourados riscados como os de um réptil. Cachos rebeldes e negros adornavam a cabeça e vestia uma camisa rosa choque com os dizeres: "Eu amo São Francisco".
Era da cintura para baixo que estava o problema. Pois onde deveria ter pernas o que havia era uma cauda grossa de serpente que se retorcia e brilhava em tons vermelhos e corais contra os raios lunares.
- Caçadora! - sibilou a lâmia e Laurel levantou-se do chão em um salto, recolhendo o arco e a flecha antes perdidos por causa do ataque súbito e os armando, os disparando contra o monstro prontamente. A cauda de serpente remexeu, desviando o percurso da flecha e essa se enterrou em um caixote de madeira com um sonoro "crac".
- Laurel! - Febe veio correndo em sua direção e deslizou pelo chão até parar ao seu lado, disparando também o seu arco.
- Não! - Lily segurou no ombro da companheira, a empurrando para um lado enquanto se atirava para o outro, pois novamente a lâmia remexera a cauda, rebatendo a flecha que desta vez foi sobre elas e passou zunindo perto da orelha da escocesa. Girou o corpo quando este se chocou com o chão e só parou quando encontrou proteção atrás de uma coluna. Olhou para o lado em que empurrara Febe e viu que ela tinha feito o mesmo movimento tático e agora tinha abandonado o arco e flecha e os trocado por uma faca. Laurel decidiu seguir a decisão da amiga e fez o mesmo, puxando as suas sai de dentro dos canos longos das botas que usava e as girando entre os dedos.
Ambas as Caçadoras trocaram mais um olhar e Febe apontou para si mesma com o dedo indicador e depois para a lâmia que sibilava e contorcia a cauda, farejando o ar a procura de suas presas visto que a pouca luminosidade dentro do armazém não estava favorecendo nenhum dos dois lados. Laurel assentiu com a cabeça e saiu detrás da coluna, usando caixotes como proteção enquanto com um grito de guerra Febe partia com um ataque frontal para cima do monstro.
A lâmia silvou ao ver o vulto da Caçadora vir em sua direção e chicoteou a sua cauda de serpente, acertando Febe no peito. Laurel aproveitou a distração dela e atacou por trás. Quanto sentiu a pontada na base de sua coluna o monstro urrou, olhando por cima do ombro para a adolescente atrás de si e seus olhos dourados faiscaram de ódio diante da ousadia dela. Mais uma vez seu rabo remexeu-se para atacar, mas desta vez Lily estava preparada e quanto a cauda desceu na sua direção ela deu um pulo para trás, deixando a mesma acertar o solo com um som abafado, causando rachaduras no cimento, e antes que ela pudesse preparar-se para outro ataque usou a sai para prender a ponta do rabo de serpente no chão.
Com isto, convocou novamente o seu arco, o armando com duas flechas e o disparando. As mesmas cortaram o ar com precisão, cravando-se no peito da lâmia ao mesmo tempo que as pontas prateadas de outras duas flechas surgiam ao lado das suas. O monstro soltou um longo e agonizante sibilo de dor até desfazer-se em poeira e luz. Laurel suspirou, indo até a sua sai e a desenterrando do chão, a recolocando na bota e aproximando-se de Febe. O som de uma corneta de caça soou por todo o porto e ambas sorriram.
- Parece que a caçada acabou por esta noite. - comentou Febe displicente. A senhora Ártemis havia separado as Caçadoras em grupos por causa da grande aparição de monstros que ocorria na área de São Francisco desde o fim da guerra com Cronos, visto que foi ali que o titã reerguera o seu castelo. O soar da corneta era o aviso de que a batalha fora encerrada por hora.
- Vai na frente, vou pegar a minha flecha. - falou, indicando sobre o ombro a flecha que a lâmia desviara para um caixote. Febe assentiu com a cabeça e girou sobre os pés, sumindo na escuridão do galpão e Laurel deu meia volta, indo até a caixa de madeira e arrancando a sua flecha da mesma.
Palmas soaram por todo o armazém e a jovem prontamente armou o seu arco e rodou os olhos pelo lugar a procura da nova ameaça.
- Foi impressionante. - com um girar de corpo pôs-se na direção em que veio a voz e disparou a flecha, vendo o projétil prateado passar como um rastro de poeira lunar perto de um rosto jovial e inabalado diante do ataque. - Você é do tipo que atira primeiro e pergunta depois?
- Senhor Apolo! - Laurel exclamou aborrecida, guardando o seu arco e depois cruzando os braços sobre o peito. - O que faz aqui? - perguntou com uma expressão desconfiada. Ultimamente Apolo andava fazendo visitas surpresas ao acampamento das Caçadoras com a desculpa de que sentia saudades das suas irmãs favoritas: Thalia e Ártemis. A deusa simplesmente lançava uma olhar incrédulo para o gêmeo, como se perguntasse a ele se cruzara com Dionísio recentemente e Thalia não sabia nem como reagir diante do súbito interesse fraterno do olimpiano.
- Estava dando uma volta por essa área... - a Caçadora soltou um bufo descrente. Estavam no cais do porto, em um armazém desativado e no meio da noite. O que um deus estaria fazendo rondando por ali? - quando ouvi os sons de batalha e então vim dar uma espiadela. - deuses mentiam? Porque se sim, Apolo estava fazendo um trabalho divino, com o perdão do trocadilho.
- Claro. - rolou os olhos, girando sobre os pés e dando as costas ao outro adolescente. As outras Caçadoras e Ártemis deveriam estar esperando por ela e se não aparecesse logo, com certeza mandariam um grupo de busca achando que algo lhe aconteceu.
- Por que a pressa? - pulou de susto pois em um piscar de olhos Apolo estava em uma plataforma elevada conversando com ela e no outro estava na sua frente. Deu um passo para o lado na intenção de contorná-lo, mas o deus acompanhou o seu movimento, continuando a bloquear o caminho. Exalou longamente em sinal de frustração e semi-cerrou os olhos na direção do homem. - Você é diferente das outras Caçadoras. - falou divertido. - Elas parecem ter uma aversão e terror tamanho dos homens, deuses ou mortais. Mas você... Você nem se abala. Curioso.
- Apareceu aqui simplesmente porque acha o fato de eu servir Ártemis e ao mesmo tempo não ser alérgica a homens um caso curioso? - não podia acreditar nisso. Apolo não deveria ser o deus-sol, deveria ser o deus dos doentes mentais, porque com certeza ele não regulava bem.
- É que você me intriga profundamente. - existia sanatório no Olimpo? Pensou Laurel, porque o olimpiano estava urgentemente precisando de um. Desde que se conhecia como gente Lily sempre se considerou a criatura mais simplória do mundo, digna de não despertar o interesse de ninguém, quanto mais de um deus. - Não consigo ver o seu futuro.
- O quê?
- Você mesma disse... Sou o deus das profecias, mas não consigo ver o seu futuro. - os olhos azuis praticamente brilhavam na semi escuridão do galpão e a jovem engoliu em seco. Deveria deixar para lá ou se preocupar com o fato de que, aparentemente, não tinha um futuro? Apolo deu um passo a frente e a garota travou os pés no chão para impedir-se de recuar, não queria causar nenhum desrespeito ao deus. Quando ele estendeu uma mão e tocou com as pontas dos dedos mornos a sua face, sentiu o seu coração falhar várias batidas e os seus olhos ficaram largos.
- O-o-o que o senhor está fazendo? - balbuciou horrorizada. O último homem que a tocou fora Christopher Hail quando a humilhara na frente de toda a escola, antes dela ser resgatada por Zöe e jurar obediência a Ártemis. Quis ardentemente estapear a mão do deus para longe de sua bochecha, mas parecia que todos os nervos de seu corpo não estavam mais obedecendo o seu cérebro.
- E você ainda me é extremamente familiar. - deu mais um passo a frente, invadindo de maneira perigosa o espaço pessoal da Caçadora. - Mas não consigo lembrar de onde. - os olhos azuis estavam próximos demais, notou Lily com pavor, tanto que ela pôde perceber que em torno da íris clara havia um anel dourado como ouro e que seus pensamentos estavam começando a tomar um rumo que não deveriam. Por exemplo: era completamente errado para uma Caçadora de Ártemis considerar o gêmeo de sua senhora a criatura mais bela que já vira na vida.
- Laurel! - o chamado a acordou de seu transe e com um ofego ela recuou aos tropeços, o rosto completamente vermelho e os olhos com as pupilas dilatadas. Por cima do ombro de Apolo pôde ver Thalia surgir na esquina que uma fileira de velhos caixotes formava, seguida de outras Caçadoras e da deusa.
- Irmão... - Ártemis mirou Apolo com os olhos pratas estreitos em desconfiança e depois percorreu o olhar até Lily que respirava pesadamente e ainda tinha as bochechas vermelhas. - Venha Laurel. - estendeu a mão para a garota que prontamente pôs-se a caminhar na direção da ruiva e postou-se atrás dela, a usando como escudo contra o outro deus. - Thalia, leve as Caçadoras de volta ao acampamento. - ordenou e Thalia assentiu com a cabeça, dando meia volta e tomando o caminho de saída do armazém, sendo seguida pelas companheiras e deixando os gêmeos olimpianos sozinhos.
- Irmãzinha... - Apolo começou com o seu usual sorriso maroto.
- Não venha com irmãzinha para cima de mim Apolo. O que você estava fazendo aqui? Sozinho? Com a minha Caçadora?
- Só estava dando uma volta. - deu de ombros e Ártemis o fuzilou com o olhar.
- Pois a partir de agora dê as suas voltas longe das minhas Caçadoras. Melhor... Longe de uma Caçadora em particular. - o alertou, dando meia volta e indo embora do galpão. Apolo ainda ficou alguns minutos na escuridão do armazém depois da partida da irmã, absorvendo as palavras dela. Poderia obedecer a sua gêmea, mas desde quando ele dera ouvidos a ela? Com um sorriso traquinas no rosto desapareceu em um clarão.
oOo
O quarto onde estava lhe era mais do que familiar, era o seu refúgio. Foi o seu refúgio por quatorze anos desde que fora morar naquela casa. As paredes em um tom rosa claro, os quadros com temas infantis, as cômodas brancas, o berço e o armário foram trocados com os anos, mas ela reconheceria em qualquer lugar a enorme porta dupla de vidro que levava para um terraço onde havia um singelo jardim e as cortinas de seda brancas que sempre costumavam balançar com a brisa do verão.
O que ela não reconhecia era a mulher debruçada sobre a grade do berço de bebê e sendo iluminada pelos raios pratas da lua que entravam pelos vidros da janela do quarto. Seus cabelos eram longos, de um tom castanho amarronzado e com largos e generosos cachos que desciam emoldurando a face redonda e iam até o meio das costas. A pele era alva e imaculada e os olhos verdes como folhas de uma floresta. O sorriso que estava no belo rosto era triste e o vestido em tons claros e de tecido leve balançava com a brisa que entrava pela fresta da janela.
- Eu sinto muito minha pobre criança. - as pontas dos dedos longos acariciaram o rosto macio do bebê adormecido dentro do berço. - Queria lhe dar mais do que isto, mas não é seguro ficarmos juntas. Peço todos os dias que os deuses olhem por você. - continuou em um tom baixo, quase um sussurro, e depois se afastou das grades, levando as mãos ao pescoço e soltando algo dele. Quando as ergueu novamente, entre os dedos havia um cordão de ouro com um pingente de esmeralda em forma de folha, o qual a mulher passou em torno da cabeça do bebê.
- Ártemis olhará por você. Ela é a deusa da caça, das florestas, da natureza, é a nossa protetora e estará sempre ao seu lado, porque eu não poderei mais. - disse com pesar, inclinando-se sobre o berço e depositando um suave beijo na testa da criança adormecida que remexeu-se mas não despertou de seu sono profundo. A mulher retornou a sua posição, lançando um último olhar triste para o berço e seguiu em direção as portas duplas, as abrindo levemente e desaparecendo em um sopro de vento.
Laurel sentou-se abruptamente com a respiração ofegante e o coração descompassado diante do sonho que teve. Ou fora uma lembrança? Não saberia dizer. Percorreu os olhos a sua volta para as suas companheiras de barraca e notou que estas ainda estavam adormecidas. Silenciosamente saiu de seu saco de dormir, calçando as suas botas e abandonando a barraca sem fazer barulho algum. Uma brasa ainda queimava na fogueira montada ao centro do círculo do acampamento e lobos das montanhas faziam vigília ao redor das barracas. Corujas estavam empoleiradas no topo dos galhos grasnando e observando qualquer movimento enquanto grilos cantavam ao longe.
Mirou o céu por entre as copas das árvores e viu que faltavam poucas horas para a alvorada. Estremeceu. Pensar no amanhecer a fazia se lembrar de Apolo. E lembrar de Apolo a remetia a noite em que encontrara o deus no armazém do cais do porto de São Francisco. Sacudiu a cabeça para desfazer esta lembrança e soltou um longo suspiro.
- Sem sono? - virou-se para se deparar com a própria Ártemis saindo de sua barraca.
- Minha senhora. - fez um cumprimento polido com a cabeça. - Eu... Iria mesmo falar com a senhora.
- Sobre?
- Tive um sonho agora há pouco. - e começou a relatar para a olimpiana sobre o sonho que tivera e que a fizera acordar tão cedo. Ártemis a ouviu com atenção e franziu as sobrancelhas ao final do relato. - A senhora sabe de alguma coisa?
- Venha comigo Laurel. - pediu, dando meia volta e encaminhando-se para a sua barraca. A Caçadora a seguiu, adentrando a barraca da deusa e acomodando-se em uma das almofadas que ficava a um nível abaixo do pequeno trono que fazia parte da decoração do local e onde a divindade havia se acomodado. - Talvez seja a hora de você saber um pouco sobre o seu passado.
- Senhora? - perguntou confusa. O que havia de mais em seu passado? Era filha bastarda de um Lorde bretão e de mãe desconhecida. Ou quase desconhecida. Se o sonho que teve fosse alguma indicação, aquela mulher debruçada sobre o berço deveria ser a sua mãe, o bebê era ela, o presente, o cordão que usava, fora presente de sua mãe e a mesma, aparentemente, era uma seguidora de Ártemis.
- Um talento como o seu desperdiçado nas mãos de mortais. - Ártemis fez um "tsc" entre os lábios e sacudiu a cabeça em negativa. - Foi por isso que pedi a Zöe que ficasse de olho em você... Eu estou de olho em você desde que a sua mãe me pediu em suas orações que cuidasse de você.
- Conheceu a minha mãe?
- Faz parte da minha corte... A sua mãe. - o queixo de Laurel caiu.
- Como?
- Pense minha cara Caçadora. Apenas pense. - a jovem mordeu o lábio inferior. Ártemis tinha como corte os animais, a natureza... As ninfas. A mulher do seu sonho era bela como uma fada... Como uma ninfa.
- Minha mãe... Era uma ninfa. - atestou surpresa.
- A sua passividade, sua incapacidade de odiar, sua grande capacidade de amar, de perdoar, sua ligação com a natureza, tudo é herança de sua mãe. Se a deixasse viver entre os mortais eles destruiriam essas qualidades mais cedo ou mais tarde e eu não poderia permitir isso. - fazia sentido, muito sentido. Por que ela sempre pedia desculpa as suas caças antes de matá-las. Como ela sabia para que lado ir quando estavam no encalço de um monstro, pois sempre parecia que havia alguém lhe sussurrando o caminho no ouvido. Era a própria natureza lhe ajudando na caçada. Sua rápida adaptação como Caçadora, o fato de se sentir livre quando estava no meio de uma floresta em vez da cidade grande.
- Qual tipo de ninfa a minha mãe era? - perguntou curiosa e nisto Ártemis fez uma expressão que misturava dor e desagrado, uma que a jovem não compreendeu. - Senhora? - a deusa suspirou.
- A sua mãe... Ela era uma Daphne.